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Paul Thomas Anderson

Adepto do aprendizado cinematográfico assistindo filmes – “cineasta de VCR”, PTA alcançou o sucesso de crítica com trabalhos redundantes no começo dos anos 90 no cinema independente, em tramas de narrativa e temas complexos e um grande elenco.

Diretor do Mês | Crítica: Vício Inerente (2014) – Paul Thomas Anderson

por Rodrigo Italiani

Em seu sétimo longa metragem, Paul Thomas Anderson consegue trazer para as telas com todo o vigor e complexidade habituais de seus trabalhos, uma obra de igual sofisticação. Vício Inerente, o romance de 2009 do recluso Thomas Pynchon. O filme consegue traduzir maravilhosamente bem a digressão narrativa do romance, ora provando-se frustrante ao espectador,  ora o deleitando com o bom humor de uma trama que não poderia ser mais genuinamente dos anos setenta.

No longa, acompanhamos as desventuras de Larry “Doc” Sportello, um detetive particular que apenas ocasionalmente abandona seu estado de transe para observar o fim de uma era e em eventuais ocasiões investigar um dos três casos com o qual se envolveu (que mais parecem trinta). O filme também é o primeiro a fazer sentir a ausência de Philip Seymour Hoffman, que tinha passe VIP no universo de Paul Thomas Anderson.

Não por acidente, a história se passa nos anos setenta, pois marca o fim de uma era de paz e amor e abre alas para a paranóia que toma o coração de Los Angeles. O Tema é vital e se faz presente na estrutura base da história, uma vez que o ponto de vista que seguimos é o de Doc Sportello, que precisa em determinados momentos anotar em seu próprio bloco de notas se está alucinando ou não para manter controle da realidade.

Assim, não é gratuito (muito menos por descuido) que alguns segmentos mudam de forma brusca, que em sua primeira impressão podem causar o efeito de um erro de continuidade. A resposta, porém, mora na própria minuciosidade do diretor, que já a provou repetidamente e obviamente não permitiria alguns desses erros. Como por exemplo com a narradora, Sortilege, quem acreditamos ter o verdadeiro ponto de vista da história, afinal é quem narra a história desde o início. Podemos vê-la diversas vezes com Doc na trama, mas em duas cenas peculiares, onde ela viaja com o amigo no  carro, é possível vê-la claramente conversando com Doc, para em uma rápida mudança de planos desaparecer sem nenhuma explicação ou insinuação se a mesma deixou o carro ou a mente de Doc. Em nenhum momento outros personagens a mencionam a não ser na última cena. São com artifícios assim que Anderson constrói a paranóia que representa também na tela para seus espectadores.Não é até que as três tramas comecem a se entrelaçar e conectar que você realmente descobre a sensação de paranóia. E vai ter que voltar a rever o filme uma, duas, três vezes, até finalmente entender que a trama não pode ser completamente desvendada. O diretor tira isso de você sem que possa ser notado. Foram pequenos detalhes cortados durante a adaptação do roteiro (como por exemplo o por quê do escritório de Doc ser uma sala em uma clínica médica) que permitiram a história chegar a tal impenetrabilidade. Isso se mostrou, de maneira perigosa, frustrante aos espectadores, principalmente pela trama não possuir o típico roteiro disposto em três atos e nem mesmo um arco emocional tradicional o suficiente para induzir o público. Mas é na urgência de seus acontecimentos ou na imediatez de suas revelações que mora o humor e todo o encanto do Longa. O filme é, senão uma representação da filosofia do próprio protagonista, um eco do estilo de vida que se extinguia com a chegada da nova década.

O filme se sobressai também no departamento musical, como já era de se esperar do diretor, desde Embriagados de Amor, Anderson vem experimentando com suas trilhas sonoras, conduzindo o dito longa com quase completamente uma trilha experimental e aperfeiçoando-a com o magnífico Sangue Negro e o igualmente fantástico O Mestre. Em Vício Inerente, junto a Jonny Greenwood, ele nos traz uma trilha rebuscada, que não só faz uso das já típicas experimentações sonoras que Anderson comumente utilizava para exibir o estado psicológico de seus personagens, mas sim de uma trilha sonora selecionada a partir de canções da geração da qual se trata a história, a escolha é óbvia, dada a caracterização tão específica e detalhada que o filme tem artisticamente. Tudo em pró do clima pós anos sessenta que tão vigorosamente ele tenta (e com louvor, sucede) em conceber.

Mas assim mesmo Paul Thomas Anderson continua expressando sua identidade fortemente através das trilhas sonoras de seu filme. Como em uma das primeiras cenas, onde Doc, parado em meio a uma das estreitas ruas de um bairro a beira-mar, observa à distância sua ex partir e uma bateria palpitante irrompe, é uma trilha inquieta e apreensiva e a letra  “Hey you! You’re losing, you’re losing, you’re losing, you’re losing your vitamin C!” tomam novo significado no contexto. Desde o cômico resultado da calma “Burning Bridges” tocada enquanto Doc é agredido e pisoteado por seu rival, até quando ao ritmo da melancólica “Journey thru the past” vislumbramos uma doce memória do passado de Doc e Shasta, sua ex, correndo pela chuva, só para em seguida termos a cena sobreposta por um Doc solitário, caminhando pela mesma paisagem, agora modificada e um segundo depois passa de extra-diegética para diegética e de repente descobrimos que Doc ouvia a música no rádio em seu carro.

Paul Thomas Anderson cria, com seu sétimo filme, sua carta pessoal de amor aos anos setenta californianos, amante declarado de sua terra natal, não houveram esforços poupados da reconstrução do clima e visual perfeitos. É um filme de camadas, e entre cada uma delas a quantidade necessária de maconha, paranóia, nazistas, hippies e dentistas. Declarado por Anderson como o filme mais “direto” que já fez, sem tempo para nenhum artifício cinematográfico sofisticado, “Vício Inerente” é um filme intricado, até mesmo labiríntico, definido não por uma trama de tirar o fôlego, mas na premência de seus momentos singelos e cômicos.

Diretor do Mês | Crítica: O Mestre (2012) – Paul Thomas Anderson

por Beatriz Bidinotti

1950. Joaquin Phoenix interpreta Freddie Quell, um homem depravado e torto (tanto no sentido figurado quanto literal), que volta da Segunda Guerra Mundial para os Estados Unidos na tentativa de obter uma vida normal. Ele, insatisfeito e perdido na vida, busca superar o ‘ amor de sua vida’, afundando-se no sexo, em empregos que não dão certo devido a sua violência; e, nas bebidas que prepara com thinner e outras substâncias tóxicas. Pelo acaso (ou não), Freddie conhece Lancaster Dodd, interpretado por Philip Seymour Hoffman, um homem incrivelmente culto e de notável retórica que fundou o culto A Causa, sendo ele ‘o mestre’.Ele se mostra para Freddie como o mestre que deve ser seguido, “munido de técnicas semelhantes a hipnose que leva o paciente em busca de suas vidas passadas para cura de dores, problemas e até mesmo doenças; principalmente por meio da repetição, os questionários acabam por aproximá-los cada vez mais, como pai e filho – mas, eles não obtêm benefícios nesta relação.

Freddie é a personificação da falta de controle dos instintos selvagens do homem, sendo até mesmo comparado no filme mais de uma vez com um animal. Na verdade, ao observá-lo agindo, o espectador chega a se perguntar se o personagem sequer conhece o termo ‘auto-controle’; controle buscado por ele no culto A Causa. A atuação de Phoenix quanto a naturalidade com violência, alcoolismo e sexo desenfreados dosado com a ingenuidade quase infantil é uma das melhores atrações no filme.

O mestre vai se mostrando cada vez mais fraco na tentativa de sucesso com seu culto, na união do fanático corrompido pelo falso poder, que busca respeito com o  homem conhecedor de tudo e carismático (com destaque à cena em que ele canta). Esta, aliás, uma das melhores cenas entre Seymour Hoffman e Phoenix, mostrando a visão de cada um sobre a sociedade.

O filme não coloca nenhum personagem imune de defeitos e isto traz peso à forma como a história é levada, pois ‘o mestre’ amarra seus seguidores prometendo uma grande reviravolta, uma ascensão que não chega. O filme é lento, de forma que assim é possível analisar a profundidade de personagens tão redondos como Lancaster Dodd e Freddie Quell.Igualmente bem interpretada, a personagem de Amy Adams, Peggy Dodd (esposa de Lancaster), mostra-se desde a mãe protetora, de início uma mulher inocente a uma esposa ativa nos cultos e administração d’A Causa.

Já a filha de Lancaster, Elizabeth (Ambyr Childers) e seu marido, Clark (Rami Malek), faltam de maior aprofundamento em suas ações antiéticas discretas, não tendo estas conclusão posteriormente no longa.Também na lista de personagens pouco aproveitados temos o filho de Lancaster, Val (Jesse Plemons), que não aprecia, respeita ou envolve-se com o culto do pai.

A trilha sonora se mostra desconcertante. Ora transpõe sutileza a momentos que pedem mais ação sonora, ora o som tem a função de realmente incomodar quem está assistindo, repetidamente sincronizada, tornando perfeita a sua junção com a trama. Com uma iluminação simples e natural, a fotografia torna-se bela nas imagens de contraste que realçam os rostos e expressões. Paul Thomas Anderson privilegia os personagens e narrativa muito bem desenvolvidos.

Concluindo, O Mestre trata não só de como os Estados Unidos da América estavam perdidos após a Segunda Guerra Mundial, como seres humanos imperfeitos e não tão fabulosos como a o american way of life tentava mostrar. Depois da guerra, os americanos não tinham mais a nação estadunidense para seguir em batalha e aí que os cultos obtiveram força. Este filme trata do que o ser humano pode ser tornar na busca desenfreada de um mestre. Lancaster diz a Freddie a maior questão: “Se descobrir um modo de viver sem servir a um mestre, qualquer mestre, então nos conte como conseguiu. Você seria a primeira pessoa na história do mundo”.

Diretor do Mês | Crítica: Sangue Negro (2007) – Paul Thomas Anderson

por Melissa Vassali

Adaptado do romance Oil!, de Upton Sinclair, Sangue Negro é o quinto longa-metragem do diretor Paul Thomas Anderson. O filme se passa na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview, admiravelmente interpretado por Daniel Day-Lewis, é um explorador de minério que acidentalmente encontra petróleo. A partir de então acompanhamos a ambiciosa saga do personagem em busca de dinheiro e poder.

Sabendo da existência de novas terras para exploração de petróleo em Little Boston, informação vendida a Daniel por um morador local, ele decide partir com seu filho, H.W., que ele adotou ainda bebê. É aqui que se concentra a maior parte da história. Eles não demoram a encontrar o poço que procuravam, mas além de riqueza sua descoberta lhes trará uma série de conflitos.

Uma leitura possível sobre o filme é que Daniel é a personificação do capitalismo. Busca apenas o lucro em benefício próprio, com a falsa promessa de levar prosperidade para a pequena comunidade onde se instalou. Assim, cada vez mais o personagem despreza e se afasta de tudo o que é humano. Diante de um acidente com um dos poços ele não demonstra preocupação pelas possíveis vítimas – o que incluía seu filho. Daniel apenas contempla o fogo, pois ele sabe que quanto maior a chama, mais petróleo há sob a terra. Após esse acidente H.W. fica surdo e Daniel perde o que parecia ser a sua única forma de contato com a humanidade. Não haverá então mais limites nem escrúpulos para Plainview chegar onde deseja.

Não é a toa que Daniel é iluminado durante a maior parte do filme por uma contra-luz, tornando-se apenas uma sombra na tela. Não é à toa também que o ambiente subterrâneo, frio e seco, onde apenas a petróleo prospera, parece ser o ambiente natural de Daniel. O petróleo se torna o próprio sangue do personagem – e as cenas em que banhado por esse “sangue” ele experimenta um sentimento de plenitude único evidenciam isso.

Quando chega a Little Boston um suposto irmão de Daniel, temos a impressão de que esse quadro pode se reverter– diante da possibilidade de retomar seu contato com a humanidade através de um irmão de sangue, as cenas passam a ser mais iluminadas e Daniel se permite ter alguns pequenos momentos de prazer – como quando se banha ao mar, em clara oposição à terra seca –, mas é justamente ali, na água, que Daniel descobre a farsa do irmão, que não passava de alguém visando se aproveitar da fortuna dele. Daniel estaria mesmo fadado a ser só e seco como a terra, e sem nenhum laço de sangue com alguém.

O diretor Paul Thomas Anderson recorre a outro pilar da sociedade norte-americana, a religião, para criar o opositor de Daniel, o pastor Eli Sunday (irmão do homem que vendeu a Daniel informações sobre os poços em Little Boston). E assim como há um trocadilho no nome de Plainview (“visão ampla”, que coloca Daniel como o homem da razão), o sobrenome de Eli nos remete ao dia santo cristão, o domingo, que é o dia de descanso, em contraste pela lógica de trabalho empregada por Daniel. O conflito entre os dois surge quando Daniel nega a Eli a chance de benzer o poço que fora inaugurado na cidade, e após o acidente o pastor prega que tal fato só aconteceu porque o poço não tinha a benção divina. Mas embora em conflito constante, a “religião” e o “capitalismo” não são diferentes em sua essência – os dois buscam poder e em determinados momentos do filme os personagens que os representam realizam discursos contrários à sua ideologia para conseguir o que almejam.

E é a ganância que norteia ambos que levará ao desfecho prometido pelo título em inglês. Haverá sangue. Mas estas são apenas as primeiras impressões de um filme tão profundo quanto os poços de exploração de petróleo escavados pelo seu protagonista. Para acessar as camadas que o compõem e enxergar todos os simbolismos empregados pelo diretor é necessário muito mais do que assisti-lo outras vezes. Precisamos, assim como o protagonista, tentar ter uma visão abrangente sobre o que nos é apresentado.

Ensaio | O Cinema Mosaico

por Rogério Emílio

Os anos noventa se iniciam de forma conturbada e desafiadora, com a queda da poderosa União Soviética, os países do leste europeu ganham sua independência, nas paradas musicais o cantor Vanilla Ice se torna o primeiro rapper a alcançar o posto número um na Billboard e a rede de TV CNN transmite pela primeira vez os combates de uma guerra em tempo real, dando chance ao mundo de conhecer a força militar dos Estados Unidos e descobrir onde eles gastam seu dinheiro.

O cinema ainda como um dos principais mercados culturais continuava arrastando platéias com obras como Esqueceram de mim, O Exterminador do futuro 2 e Jurassic Park. Dentro desse contexto dominante nasce uma escola autodidata que colocou em cena uma geração de novos cineastas independentes, que conseguiram uma importante inovação fílmica abrindo concorrência com os grandes estúdios hollywoodianos e seus orçamentos milionários.

O diretor e roteirista Paul Thomas Anderson veio dessa escola, portando um elevado senso artístico começou fazendo muito com pouco, criou suas próprias características de linguagem e seus roteiros dramáticos e intrigantes chamaram a atenção do público adepto da sétima arte. Anderson sempre teve como referência o mestre Robert Altman, o que o influenciou bastante na criação de seus personagens.

Por falar em Altman, este pegou carona nessa onda noventista e depois de alguns anos longe das telas americanas retorna com o brilhante O Jogador pra logo depois lançar o fabuloso Short Cuts e dar continuidade em um estilo diferente de cinema criado nos anos setenta que continha uma narrativa sedutora e que ficou conhecida como multi-plot ou cinema mosaico. Nos filmes mosaicos existem diversos personagens principais, mas todos eles sucumbem a um único protagonista, a vida diária.

      Short Cuts – Cenas da Vida

short

Robert Altman sempre preferiu mostrar como as pessoas se relacionam em um determinado grupo social ao invés de contar uma história no modo tradicional e Short Cuts se manteve fiel ao seu estilo. Adaptado de alguns contos de Raymond Carver o filme conta com uma gama de personagens malucos, engraçados e desagradáveis, porém consegue dialogar com o espectador de uma maneira tão próxima que nos sentimos familiarizados, como se já nos conhecêssemos. Um motorista alcoólatra namora uma garçonete, essa atropela o filho de um apresentador de telejornal, que tem como empregado um limpador de piscinas casado com uma mulher que presta serviços a uma rede de tele sexo e que são amigos de um casal de doidos. Do outro lado temos um pescador desempregado casado com uma animadora de festas infantil, esses irão jantar na casa de um médico que descobre ter sido traído pela sua mulher artista plástica, que é irmã de uma dona de casa casada com um policial mau caráter que adora trair sua esposa com uma mãe que não suporta mais seu marido piloto de avião. Ainda tem a cantora de jazz que não dá a mínima pra sua filha violoncelista obcecada pela morte.

É personagem que não acaba mais, todos se entregando ao cigarro e a bebida, fazendo dessas substâncias um calmante para controlar essa histeria que é o cotidiano pós moderno. Existe também um coadjuvante nessa loucura toda, um eletrodoméstico presente em quase todas as casas que ganha destaque nas cenas em que aparece, sempre propondo uma mobilidade familiar, a TV.

Toda essa gente vive em meio a um momento de epidemia de insetos, sem perceber que são a própria praga, vivendo em uma sociedade caótica e conformada. Convivendo com mentiras e traições, não se importando com valores humanos e sem nenhum respeito ao próximo, seja ele seu companheiro, seu filho ou até mesmo um cadáver boiando na beira do rio. Talvez por esses motivos brote aquele sentimento familiar com os personagens do filme, eles estão a nossa volta, são nossos amigos, parceiros e nossas amantes.

Magnólia

magnolia

Como disse o Eclesiastes que embaixo do sol não há nada novo, Paul Thomas Anderson realizou o seu mosaico inspirado em Short Cuts, fez um retrato melancólico da realidade e chamou sua obra de Magnólia, metaforizando nossas vidas com a fragilidade da flor que dá nome ao filme.

MAGNÓLIA é construído na mesma estrutura narrativa, deixando de lado as situações cômicas e se aprofundando em questões perturbadoras dentro de relações familiares. Traumas de infância, homossexualidade, incesto, abuso de drogas e enfermidades são alguns dos principais temas envolvidos no enredo recheado com simbolismos religiosos e referências bíblicas. Anderson conduz a história como um maestro, avançando e recuando nos dramas mais angustiantes do ser humano. Tom Cruise brilha como um marqueteiro machista e vulgar, que diante de um reencontro com seu pai à beira da morte, se revela um menino sensível e machucado. Diferente de Short Cuts, o policial retratado aqui é dedicado, esforçado e com um coração de ouro. Qualidades que superam seus fracassos profissionais.

O filme é rico em detalhes no roteiro que revelam o passado dos personagens, colocando um ponto de reflexão maniqueísta para entender as mágoas, as traições e os arrependimentos. Os segredos são revelados nos momentos finais, trazendo uma reviravolta onde os coitados se tornam merecedores. A TV também marca presença, como um meio manipulador, soberano e destruidor de personalidades. Dois outros personagens, um adulto e uma criança, fazem uma espécie de paralelo entre presente, passado e futuro mostrando as conseqüências de uma educação repressiva e os excessos controladores da mídia. Não é a toa que o popular apresentador Jimmy Gator resistindo a um câncer avançado e condenado psicologicamente, acerta por engano um tiro em seu televisor. Também como não é por acaso que sua filha tenha se tornado uma viciada em cocaína.

O bem e o mau, o certo e o errado, a vida e a morte são os valores apresentados nessa obra de arte simplesmente magnífica que produz um elo na vida dessas pessoas nos colocando pra lembrar-se da existência de uma força motriz poderosíssima chamada destino e outra chamada coincidência e que as duas juntas podem mudar o sentido e a natureza da vida. Também nos trás a mensagem de que os erros cometidos em favor do nosso ego devem ser evitados pro bem da nossa saúde. O filme não nos deixa respirar durante suas Três horas de projeção. É tensão do começo ao fim. E como não se emocionar no momento em que todos são unidos por uma canção que passa conforto e esperança as almas desesperadas?

Crash – No limite

crash

No mundo nada se cria tudo se copia e com as artes esse ditado é ainda mais utilizado, já que ela também serve pra influenciar e gerar idéias a novos artistas. Mas sempre há um jeito esperto de mudar a direção do tema.

Em 2004 Paul Haggis escreveu e dirigiu o premiado Crash retratando um lado preconceituoso e banal da sociedade americana. Combinando pessoas das mais variadas etnias ele faz um panorama em um determinado território, analisando o comportamento humano e a ideologia plantada em uma sociedade assustada onde o que prevalece é o individualismo.

Um promotor de justiça e sua mulher mimada têm seu carro roubado. É o ponto de partida para o desdobramento de uma história onde as vidas das pessoas colidem através do racismo e da insegurança. Abuso de autoridade, desrespeito e falta de ética moral é o que faz os personagens perderem o controle mental, culminando em trágicas conseqüências.

Os conflitos acontecem dentro de trinta e seis horas na cidade de Los Angeles onde o preconceito é unanimidade e vem de todas as formas, racial, cultural e social econômico. O conceito de semelhança e comunhão é banido da realidade. Na verdade é uma guerra civil desmoralizada e desumana em que a arma mortal é a ideologia.

Diante dos fatos abordados por Crash e sem esquecer-se do marcante caso real do taxista Rodney King, é posicionado uma questão primordial que vai contra o principal discurso que representa os Estados Unidos durante séculos de sua existência. Será mesmo a América um país livre? Ou isso não passa de uma falsa ilusão encenada pelos seus pais fundadores e adotada de maneira errônea por toda a nação?

Intervenção da natureza

Apesar dos três filmes apresentados acima possuírem um parecido formato de narrativa, mas levantar temas diferentes dentro de contextos diferentes, uma manifestação se faz fundamental em todos eles. Uma alteração geológica da terra que nos faz refletir e lembrar que somos apenas microorganismos dentro de um planeta inquieto que pode mudar o rumo das nossas ações e reações.

Em Short Cuts é após um terremoto balançar Los Angeles que tudo acaba bem ou mal. Alguns se reconciliam e outros acabam por se enterrar no desespero. Já em Crash muitos mudam suas atitudes e tentam praticar um ato de bondade pouco antes de a neve cair do céu. Porém o mais bizarro e divinamente profético acontece em Magnólia, simplesmente uma chuva de sapos invade o ambiente trazendo um momento de transição, afetando o comportamento dos miseráveis e dos incompreendidos. Uma clara alusão de Paul Thomas Anderson à segunda praga enviada por Deus sobre as maldades do antigo Egito como descrito no livro do Êxodo.

Fica a lição de que a maior liberdade que se pode ter é poder escolher e tomar nossas decisões, sempre lembrando que vivemos tumultuados e o quanto influenciamos a quem está a nossa volta, porém nunca é tarde pra se arrepender e agarrar uma segunda chance. A arte sendo uma representação da vida tem o poder de nos aperfeiçoar e o cinema como vertente se torna a maneira mais direta de mostrar, ensinar e transformar.

Diretor do Mês | Crítica: Embriagado de Amor (2002) – Paul Thomas Anderson

por Maurício Owada

Após um filme policial e dois dramas, Paul Thomas Anderson explora o campo da comédia romântica. Talvez um dos gêneros que acarretam, em sua maioria, obras vazias e piegas, com diálogos saídos de uma telemensagem de amor. Mas Paul Thomas Anderson trás uma infinitude de acontecimentos nonsenses que cercam a vida de Barry, vivido com sensibilidade por Adam Sandler, que curiosamente trás estampado em sua persona a imagem de uma comédia de riso fácil e piadas grosseiras. Quem espera um humor simples, pode se decepcionar, já que o cineasta utiliza de elementos estranhos, tendo aqui o primeiro passo pra uma linguagem própria, fugindo do excesso de travellings para uma câmera mais refinada.

Barry Egan é um homem solitário e tímido, que após presenciar um acidente de carro e ver um órgão ser deixado na frente de seu escritório, acaba conhecendo Lena (Emily Watson), por quem acaba se apaixonando. Vítima de sua solidão, apela para uma ligação sexual, que acarreta em seus dados roubados e extorsão. E ainda convive com a constante presença perturbadora das sete irmãs.

O roteiro constrói os acontecimentos de forma inusitada, aonde Barry acaba surtando, pontualizada em uma trilha sonora experimental, estranha e de notas pontuais, sem um ritmo que se intensifica com mais elementos sonoros, que logo depois se tornaria comum em seus filmes posteriores: Sangue Negro e O Mestre. A câmera aqui se mostra menos movimentada, preferindo escolher pontos de vistas do que fazer a câmera rodear todo o cenário, como nas obras anteriores.

Se mesmo com atores de calibre como Philip Seymour Hoffman, em uma participação, o ator e comediante Adam Sandler consegue se sobressair, só denota uma escalação de elenco sempre incrível dos filmes do Paul Thomas Anderson, assim como a excelente direção de arte que sabe utilizar o ator para um viés dramático, sintonizando junto com o timing cómico dele para construir as cenas insólitas que misturam humor com horror, como quando é sequestrado e roubado.

Embriagado de Amor é o filme menos visado de Paul Thomas Anderson, que dá seus passos próprios em sua própria estética, trabalhando com o som e a imagem de forma experimental, abraçando um roteiro de situações estranhas e um romance igualmente estranho, mas marcado por uma ternura e uma paixão intensa que aceita as características do outro de braços abertos, não havendo medo para Barry se envolver e esquecer como seus antigos problemas o afetam.

Diretor do Mês | Crítica: Magnólia (1999) – Paul Thomas Anderson

por Kelly Soares

Nos minutos iniciais, de uma forma rápida, o filme nos conta três histórias curiosas: na primeira história, três homens são enforcados por volta de 1911, pelo assassinato de um farmacêutico, cujos nomes juntos, curiosamente, formam a palavra Greenberry-Hill (nome da cidade onde viveu o farmacêutico), um homem que acabou matando acidentalmente em seu trabalho um outro (o mesmo que esmurrou num jogo de cartas dias atrás) e outra foi o garoto que decidiu se matar, mas não havia visto que havia uma rede que o salvava, mas o que realmente o matou foi o tiro acidental de uma espingarda carregada durante a briga dos pais dele (que sempre andava descarregada e foi carregada pelo garoto para que os pais se matassem), disparada pela mãe no momento que passava caindo pela janela da casa. Após estas três histórias curtas no seu prólogo, todo o restante do roteiro de Paul Thomas Anderson tem uma certa causa e efeito, e tudo contém uma relação restrita, ainda que indireta. Os acontecimentos na trama principal são determinados por fenômenos e eventos conforme as relações humanas são perpetradas, ao invés de um determinismo humano. Para organizar este mosaico de situações e dar coerência, Anderson usa um enorme conjunto paralelo de subtramas carregado de dramas pessoais.

Mais afinal do que se trata o filme Magnólia? A coincidência de doenças incuráveis e também o fato de Jimmy Gator ser o produtor do Quiz Kid (um game show televisivo ficcional antigo e de grande sucesso) e de Frank Mackey exercer domínio sobre a mesma ideologia, nos faz pensar que talvez o filme tente demonstrar o fato das violências cometidas por pais contra seus filhos (sejam físicos ou psicológicos) acaba gerando adultos perdidos e sem esperança.

Criando camadas diversas, o filme aborda não só as relações de pais e filhos, assim como a utiliza para questionar a cultura massiva de televisão, a solidão e a carência por amor. William H. Macy é o reflexo de um possível futuro do garoto que é sucesso no Quiz Kid, que nos leva a Jimmy Gator, que possui uma relação conturbada pela filha, viciada em crack que se vê em uma paixão pelo policial vivido por John C. Reilly, homem solitário que lida com um caso de assassinato de fatores e motivações misteriosas. No outro lado, Jason Robards é um velho milionário a poucos passos da morte, casado com uma mulher mais nova interpretada por Julianne Moore, que nunca o amou e tal sentimento só vem a tona quando está prestes a morrer, e pai de um guru do amor representado com perfeição por Tom Cruise, de discurso machista, vê seu passado ser exposto em rede nacional em uma entrevista, que é procurado com desespero pelo cuidador do milionário, vivido com sensibilidade por Philip Seymour Hoffman. E a partir disso, todas os conflitos são gerados pela televisão, seja a entrevista ou o game show, Magnólia desnivela cada “pétala” que não é revelada na tela da TV.

Com uma gama gigantesca a ser explorado no roteiro, Paul Thomas Anderson interliga conceitualmente e dramaticamente cada estória, cada tema e cada conflito, porque devido a um acontecimento estranho e inesperado no fim do segundo ato, ela coloca todos diante do mesmo julgamento e todos são colocados em caminhos que rumam para a entrega e confissão de seus pecados (ou algo além disso). Paira um motor nada lógico em cada evento, a quebra constante do andamento da diegese pela canção Wise-Up, cantada por todos os personagens em cena ao mesmo momento, nos faz duvidar da individualidade da vida de cada um – um influi na outra, como um ciclo que atinge um ponto divergente.

Magnolia possui diversas simbologias, entre elas, uma referência implícita ao Êxodo 8:2, que por sinal aparece várias vezes no decorrer do filme em forma de previsão do tempo em legendas que parecem sem propósito no começo, nos leva a parte mais bizarra e insólita do filme: a “chuva de sapos”. Lembrando que sapos são símbolo de bem – aventurança (felicidade e tranquilidade) na cultura oriental. Essa perspectiva faz perceber que depois da chuva todos ficam iguais, pois arrependem-se, assumem seus erros e estão dispostos ao perdão e à redenção.

Talvez o conflito de pais e filhos remetam a eterna crise dos homens com Deus, talvez a inserção de uma passagem bíblica, um fenômeno insólito e que completa a crescente quebra de diegese, assim como fizera na sequência musical que toca Wise-Up, o fator que prevê a chuva de sapos, a entrada de todos os personagens ao “tribunal” da vida, de destinos imprevisíveis, um Deus Ex Machina com um conceito moderno – a intervenção divina que decide assumir e quebrar o andamento normal daquela realidade, assim como no andamento comum do roteiro.

Magnólia demonstra fatores além da nossa compreensão (e que nós mesmos não buscamos compreender) que podem levar várias histórias ao um rumo totalmente diferente, como se quisesse justificar a frase “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Diretor do Mês: Crítica | Boogie Nights – Prazer Sem Limites (1997) – Paul Thomas Anderson

por Maurício Owada

Glamour, riqueza, fama e reconhecimento. Não são coisas apenas enaltecidas apenas pelo American Way of Life, mas por todo um mundo que busca uma condição melhor baseado num status, seja ela psicológica (afim de compensar o ego) ou socio-econômica (num sistema capitalista, o dinheiro é a chave de acesso para as quatro coisas citadas acima, além de prover a sobrevivência fisiológica do indivíduo). Dirk Diggler (Mark Wahlberg) é um daqueles que tinha algo em especial, num mundo que não o aceitava pelo que ansiava, ele acha na indústria pornô, o palco para se destacar em imagem e nome (mesmo que ela seja construída numa máscara teatral feita para vender).

No ritmo da discoteca que embalava a liberdade sexual dos jovens nos anos 70, Dirk Diggler e um diretor de filmes eróticos (Burt Reynolds) se sustentam no entretenimento adulto para formar uma carreira e ambos irão emergir em excessos de sexo e drogas, levando a caminhos incontornáveis. Paul Thomas Anderson constrói toda a narrativa na construção do glamour para ruí-la na decadência.

O roteiro trabalha numa estrutura que lembra Os Bons Companheiros, mesmo a técnica de filmagem que utiliza muito do steadycam para os travellings constantes em cenas de festas, culminando no belíssimo plano-sequência de abertura. A divisão em capítulos esbanja da liberdade de cenas que ditam um ritmo e o clima, como o recorte de sucessos entre boquetes encenados, resenhas de filme pornõ positivas, premiações e a comemoração na pista colorida e iluminada da discoteca, que destacam o inventivo trabalho da montagem.

Renegados pela família e outras instituições, os artistas do ramo encontram entre eles o conforto e recepção que o mundo lá fora nega a dar. Julianne Moore vive uma belíssima atriz da indústria que sofre com a distância do filho, ao mesmo tempo que não pode conciliar o ofício de mãe com a de atriz e sua atuação é tocante, enquanto Burt Reynolds vive um diretor que se encontra num paradoxo de querer fazer algo artístico em um ramo de entretenimento fácil, tornando a transição da película para VHS em algo brilhante, remetendo a história do cinema do público geral – do mudo para o som, da película para o digital (a transição atual). Contando com um elenco gigante e excelente, PTA se firma como um ótimo diretor de atores, assim como sabe trabalhar com cada tempo que o ator dispõe na estória.

Boogie Nights trás um paralelo do cinema pornô e o cinema convencional, desmistificando aspectos ao olhar para os bastidores e para cada indivíduo de forma íntima. A grande obra de Paul Thomas Anderson trás o talento de um diretor promissor, seguro de sua capacidade e que ousa em adentrar num mundo rodeado de excessos, uma válvula de escape para as frustrações tão comuns no cinema adorado pelo público padrão, o estrelismo e outras questões permeiam os conflitos e trás um mosaico de uma indústria e o seu final, que remete a outro clássico – Touro Indomável – permeia a natureza daqueles personagens de forma brilhante e impactante, com um pênis grande e veiudo de forma explícita.

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