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Eduardo Coutinho

Considerado um dos maiores documentaristas brasileiros, o seu olhar sempre se focou nas pessoas comuns e em dar voz a eles, ao mesmo tempo que questionava a estética cinematográfica e a veracidade dos fatos dos próprios documentários… e a própria realidade.

Diretor do Mês | Crítica: Um Dia na Vida (2010) – Eduardo Coutinho

por Beatriz Bidinotti

Este documentário de Eduardo Coutinho é o resultado da gravação de toda a programação de diversos canais de TV aberta brasileira. Quinta feira, dia 2 de outubro de 2009 – véspera do anúncio da cidade-sede das Olimpiedas de 2016; o cineasta grava por 19 horas seguidas os programas, novelas, propagandas e jornais que fazem parte do cotidiano do povo brasileiro.

É evidente as mudanças de conteúdo conforme o tardar do dia. O público infantil das manhãs logo é substituído pelos jornais da hora do almoço, tornando-se cada vez mais adulto, violento, fútil, sensacionalista e idealista. O retrato daquilo que é visto pela população a torna semelhante, reflexo das imagens na tela; alienada a pensar que ao comprar o que lhe é oferecido poderá alcançar a felicidade que é vendida: a beleza idealizada e impossível.

Os programas – e propagandas – da tarde (e parte da noite) tornam seu publico alvo, de maioria mulheres, à mostra da futilidade e culto ao exterior, desde os cirurgiões e produtos que prometem a obtenção do corpo ideal às novelas para entreter as mulheres que ficam em casa. O documentário, silencioso, não precisa de palavras para que o publico identifique o quanto a estética é valorizada e priorizada na televisão; com fins lucrativos e metas inalcançáveis. Tais situações recordam o caso de Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) em Réquiem Para Um Sonho, de Darren Aronofsky; em que a senhora solitária e viciada em televisão toma atitudes drásticas para emagrecer e colocar seu antigo vestido vermelho, crendo que ao medir o tamanho imposto pela sociedade, ela preencherá o vazio em seu coração.

No outro, temos a violência vendida como entretenimento. As pessoas são cada vez mais postas diante das tragédias ao natural que elas passam a vê-la assim. Câmeras de segurança, assaltos, tiros em crianças e socos em mulheres: brutalidade comercializada e, de brinde, as notícias.

Outro elemento muito presente é a religião. Os programas, shows, palestras e vendas relacionados a esta fazem parte da cultura do Brasil. No entanto, como falado inclusive em um dos programas selecionados, cada igreja passa mais tempo tentando mostrar-se superior e mais certa que a outra do que passar as mensagens de amor e paz. A venda de indulgências fora apenas renovada, mas desta vez com ódio por aqueles que desejam a mesma paz, mas por vias diferentes.

O interessante é ver a mistura de elementos de qualidades tão diferentes, justamente como os diferentes espectadores. A continuidade de programas e produtos há anos é vista, assim como a notícia do dia: qual cidade irá sediar as Olimpíadas de 2016. A ansiedade e o entusiasmo da possibiidade do evento ser no país, ironicamente une as pessoas que se fragmentam o resto do ano.

O filme quebrou com o que se via de Coutinho, o documentário em formato de entrevista. Com uma montagem simples, Um Dia na Vida é a junção das cenas das televisão, sendo auto-explicativo e auto-suficiente. Um filme que inicialmente seria base para estudo, não foi visto pelo público nas grandes telas devido ao uso de imagem de terceiros. Ele consegue ser sóbrio e crítico, analista e, acima de tudo, um documentário que pode ser considerado um retrato de uma geração.

Diretor do Mês | Crítica: Moscou (2009) – Eduardo Coutinho

por Maurício Owada

Teatro ou cinema? Visto ou não visto? Como uma das professoras já me falou, não adianta querer fazer uma obra de arte com um cinema (ou teatro, ampliando a ideia da sentença) se ele servir apenas pra você ver e não chegar ao público. Desafiados por Coutinho, o Grupo Galpão deverá encenar a peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchekov, com o propósito de jamais estrear a peça – até que se estreasse o filme. O que temos é o recorte da peça, o filme no qual se “retira” Coutinho e a obra fica a mercê do acaso da improvisação dos atores do grupo na encenação e no ensaio da peça, em roupas comuns e utilizando do cenário do teatro, aquilo que não é visto no palco, como o camarim e as estruturas metálicas de iluminação.

Entre todas as obras de Eduardo Coutinho, ela emociona pela beleza do texto de Tchekov e a naturalidade e paixão nas falas dos atores do grupo, dirigidos por Enrique Diaz (por escolha do Grupo Galpão). Assim como define o documentário, a obra é permeada por imprevistos que fazem da “narrativa”, daquilo que está se retratando diante das câmeras e o que fica é a câmera a mercê dos atores e do texto melancólico que é encenado. Com certeza, se cria uma dúvida do que é este filme e a reflexão pode levar-nos a lugares distantes, mas que jamais chegamos, como a cidade tão estimada pelas irmãs, que dá nome ao filme. E é esse título que define a natureza da obra, aquilo que almejamos, mas não alcançamos, o “fora do quadro”, segundo a crítica Ilana Feldman. A idealização de algo e a representação incompleta da mesma, como as personagens que usam alguns acessórios para a cena, mas não há figurino. E em meio tempo, lembranças, reais ou inventadas, fazem parte do ensaio para a construção dos personagens.

Diretor do Mês | Crítica: Jogo de Cena (2007) – Eduardo Coutinho

por Beatriz Bidinotti

Eduardo Coutinho apresenta neste documentário diversas histórias verídicas, contadas em forma de entrevista por aqueles que as viveram e por atrizes que representam as personagens reais. Um jogo de cena literal em que aquele que assiste é desafiado a descobrir o que é realidade e o que é encenado.

O espectador desatento só nota a presença da narrativa atuada quando a barreira da quarta parede é cortada, no momento em que uma das atrizes, ao contar  a história, olha diretamente à câmera e diz ‘’Foi isso que ela disse.’’. Com este marco surpresa, o restante do documentário se torna uma pergunta incessante: “É atuação ou não?’’. Esta questão mostrada por Coutinho nos faz refletir quanto a atuação não só como trabalho profissional, mas quanto mentiras do dia-a-dia e no comportamento humano em frente às câmeras.

É interessante ressaltar a emoção que o filme consegue transmitir. A simplicidade de mulheres contando importantes acontecimentos de suas vidas também é tida pelas atrizes que contam as mesmas histórias. As imagens intercaladas ressaltam o título do documentário e o ponto de vista de quem viveu e de quem conta. Coutinho abre espaço para que as atrizes convidadas comentassem sua experiência e sentimentos ao vivenciar as personagens, que sofrem com situações trágicas que não aconteceu a elas; retratando assim como as pessoas podem se colocar no lugar de outras, com problemas tão reais que parecem fictícios.

No fim, uma das mulheres retorna e canta uma música que marcou sua vida para completar seu enredo. Esse retorno é possivelmente a inspiração para Coutinho criar As canções, seu documentário seguinte a Jogo de Cena.

Assim como em seus outros filmes, Coutinho sabe expor a vida de forma artística e sincera. Se a vida imita a ficção ou se a ficção imita a vida, não há como saber. Mas a mistura equilibrada de ambos em um vislumbre da vida real de mulheres guerreiras é a essência deste documentário intimidador e tocante.

Diretor do Mês | Crítica: O Fim e o Princípio (2005) – Eduardo Coutinho

por Maurício Owada

Os limites do cinema documental. É quando Coutinho entra na parte de experimentação e essa primeira tentativa lida com o fato de fazer um filme sobre a busca por um filme. Partindo para a região rural da Paraíba, o cineasta vai sem um lugar definido para entrevistar, sem um assunto específico e sem personagens para acompanhar. A busca não demora muito e partindo para o acaso, o cineasta se estabelece em uma comunidade rural.

Pouco divulgado dentro de sua filmografia, este marca a ruptura da forma de produção que seus filmes sempre vinham adotando desde Santo Forte. Não só na forma de produção, mas na forma de buscar histórias também – Coutinho se mostra à vontade pela primeira vez, encontra pessoas com quem conversa e o “microcosmo” não parte do pressuposto de se dar uma visão do Brasil, mas uma visão da vida e do nosso cotidiano. Entrevistando pessoas, em sua maioria, com mais de 70 anos. Desde a mais velha da comunidade, Dona Zefinha, passando pelo sabichão e performático Leocádio e Chico Moisés, um filósofo sertanejo de perguntas tão inquietantes quanto aos do cineasta, desarmando-o com sua dialética provinda mais de uma humildade do saber. É esse acaso que torna O Fim e o Princípio, talvez, em seu filme mais humano… o mais próximo da “verdade”, o inesperado sem ser previamente encenado.

Tendo Rosa como guia, Coutinho cria uma linha de diálogo que preza a quebra da desconfiança dos sertanejos, invade o cotidiano daquelas pessoas em busca de uma história e em seu epílogo, assim como é tão incerto como o acaso, Coutinho se despede daqueles que entrevistou sem saber se os verá no futuro, “daqui um ano”, como ele diz, quando exibir o filme a eles. O cinema de Coutinho no patamar mais profundo da definição de documentário, o registro da imagem sem roteiro, da história que se retira do inesperado, do saber vindo do mais simplório, do significativo trazido do lugar mais árido e pacato.

 

Diretor do Mês | Crítica: Peões (2004) – Eduardo Coutinho

por Maurício Owada

Coutinho tem uma peculiaridade em seu cinema documental em buscar pessoas anônimas, pessoas desconhecidas, pessoas comuns e buscar dela um fragmento da história brasileira, mas não a contada em livros, revistas e TVs, mas aquela por trás dos grandes acontecimentos, aquelas que não interessam a ninguém, apenas a aqueles que descobrem cada vez mais o teor humano diante da megalomania dos eventos sociais que ocorrem por aí.

Peões é um documentário interessante devido ao contexto político, conforme o ano em que o espectador assiste a ele – por exemplo, assistir ele na época de seu lançamento (dois anos depois da eleição do presidente Lula) e assistir hoje (que seria, conforme a data, os eventos políticos e sociais que sensibiliza a estrutura ideológica do povo atualmente, com as denúncias da Operação Lava-Jato). A imagem de Lula, inevitavelmente, permeia o documentário – o símbolo da causa operária na época – através dos relatos daqueles que participaram da luta operária no ABC Paulista, que retomou a luta por melhores direitos, quando o regime militar dava seus últimos passos e o líder mais notório do movimento alcançava, passo a passo, a fama dentro do ativismo político e da própria política, quando se candidatou a presidente contra Collor.

Do sentimento de esperança que havia durante o primeiro mandato de Lula e atualmente, a desastrosa situação política após 13 anos de PT no poder no governo Dilma, demonstra um país em total transe (como o título do clássico filme de Glauber Rocha), aonde a relação da opinião pública + posicionamento político e social de grandes empresas + estrutura de poder do Congresso ao Plenário mudou de forma drástica em pouco menos de uma década.

Coutinho entrevista aqueles que estiveram na luta, mas passaram despercebidos devido a ambições que não eram nada políticos, o documentário constrói de forma eficiente um excelente retrato histórico recente do Brasil, intercalado com imagens de documentários como “ABC da Greve”, de Leon Hirszman e “Linha de Montagem”, de Renato Tapajós, cuja história sobre esse último filme é relatado por uma das entrevistadas, quando quase foi apreendido pela polícia. Mas o cineasta dá espaço para as revelações pessoais de cada um e mostra como o movimento e o rumo que o país tomava, influenciava na vida de todos.

Peões é interessante para hoje e será daqui a 10, 20 anos. Assim como Cabra Marcado Para Morrer, o documentário busca relatar uma parte da história brasileira, aonde a ideia de mudança na sociedade balança entre realidade e ilusão. Transições sociais que mexem com o ânimo de uma parcela do povo, seja nos anos 80, 90, 2000 ou agora, onde todas elas passam por processos, muitas vezes lento, devido a burocracia e os interesses dos mais ricos e conservadores. Peões não é um filme, é um registro que nos faz refletir sobre sociedade conforme a época em que se assiste.

Diretor do Mês | Crítica: Edifício Master (2002) – Eduardo Coutinho

por Liana Nespoli

“A realidade da vida é sempre o funeral das ilusões”

Edifício Master é uma proposta despretensiosa de que cada subjetividade esconde algo de fantástico, seja um hábito, um ofício ou um modo de ver o mundo. O filme parte de uma premissa aparantemente simples, resume-se em uma sucessão de pequenas entrevistas com vários moradores de um edifício que mostra um lado de Copacabana pouco mostrado no cinema: o anonimato. Ele constrói um mosaico que expõe a singularidade de cada pessoa como uma fonte inesgotável de saberes e conhecimentos interessantes. Apesar de estar localizado em bairro elitizado, é habitado por pessoas de classe média-baixa e baixa. Podemos perceber também a importância histórica, social e cultural daquele prédio bem como as histórias folclóricas que a cercam, reforçando seu misticismo.

Coutinho descortina as histórias de vidas incríveis e que emocionam. Tamanha é a sinceridade dos entrevistados diante da câmera – solidão, amor, angustia, vidas inteiras separadas pelas paredes de um edifício. O filme por si só instiga a acompanhar estas pessoas e suas histórias. Acompanha e retrata as vidas alheias ou degradação daquele conjunto de apartamentos e seus moradores ou até mesmo pelo passado do lugar.

Mas Edifício Máster é muito mais que apenas as histórias de seus moradores. É um estudo sociológico da evolução não só daquele Edifício, mas da cidade do Rio de Janeiro como um todo, pois cada indivíduo nos faz questionar qual a lógica da vida e de estarmos aqui, assim como também como nós agimos perante determinados obstáculos e pedras que nos deparamos no meio do caminho durante nossa vida.

Diretor do Mês | Crítica: Babilônia 2000 (2000) – Eduardo Coutinho

por Maurício Owada

Ano vai, ano vem. Cada um é apenas um período de tempo determinado pelo olhar humano que determinou o período de uma hora, um dia, um ano, décadas, séculos… através do olhar sobre a natureza, a posição do Sol, as rugas que surgem em nossos rostos, das ideias que modificam a cada cultura vigente. Mas certas coisas permanecem, só mudam de cara… mesmo depois de anos, mesmo depois de ideologias e lutas que visaram a igualdade de classes, mas essa não é a principal questão do documentário Babilônia 2000, pelo menos, não explicitamente. A celebração de uma nova época, um novo milênio através do olhar esperançoso e humano de moradores das comunidades pobres da Babilônia e Chapéu Mangueira, assistindo ao réveillon em Copacabana, famoso bairro rico carioca.

Esse contraste já bastante forte trás diversas questões complexas, desde a desigualdade social, até questões mais humanas como futuro, morte e passado, que dialogam com temas político-sociais que trás um retrato de um país, que estava prestes a sair do século XX, menos a sua estrutura social. Trabalhando através de entrevistas como fez em Santo Forte, Eduardo Coutinho retira entrevistas espontâneas de pessoas com histórias que montam o mosaico de um lado do Brasil, o daqueles que moram em morro e sempre foram rodeados pela pobreza e pela falta de elementos básicos que devem ser proporcionados na metrópole.

A cada hora que passa, vemos pessoas se preparando para as últimas horas de 1999, algumas voltam do trabalho para descansarem e passar o ano novo com a família, como um preparo ritualístico sem nenhuma regra específica, sem nenhuma tradição – cada um vive seu ano novo ao seu modo, cada um com desejos específicos, expectativas diversas. Só se sabe (ou acredita) que a virada do ano deve ser festejado para trazer tudo de bom pela frente, numa fé que remete aquela citada na canção Alagados, do Paralamas do Sucesso – “a arte de se viver da fé, mas não se sabe fé em quê”

O envolvimento de questões sociais na verdade, são inseridas num contexto humanista, em como cada estória foi trajetada e como se pretende trajetar, cada anseio e esperança misturam-se com relatos passados. É a distância com que se vê os fogos de artifício que define o papel de cada um naquele lugar, mas é a celebração daquele momento que é voltado para um outro público pelos moradores do morro que demonstra essa ruptura com as paredes sociais, com essa divisão elitista, com esse conceito abstrato que, assim como qualquer outro, não é invulnerável a vontade do espírito humano.

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