por Beatriz Bidinotti

Este documentário de Eduardo Coutinho é o resultado da gravação de toda a programação de diversos canais de TV aberta brasileira. Quinta feira, dia 2 de outubro de 2009 – véspera do anúncio da cidade-sede das Olimpiedas de 2016; o cineasta grava por 19 horas seguidas os programas, novelas, propagandas e jornais que fazem parte do cotidiano do povo brasileiro.

É evidente as mudanças de conteúdo conforme o tardar do dia. O público infantil das manhãs logo é substituído pelos jornais da hora do almoço, tornando-se cada vez mais adulto, violento, fútil, sensacionalista e idealista. O retrato daquilo que é visto pela população a torna semelhante, reflexo das imagens na tela; alienada a pensar que ao comprar o que lhe é oferecido poderá alcançar a felicidade que é vendida: a beleza idealizada e impossível.

Os programas – e propagandas – da tarde (e parte da noite) tornam seu publico alvo, de maioria mulheres, à mostra da futilidade e culto ao exterior, desde os cirurgiões e produtos que prometem a obtenção do corpo ideal às novelas para entreter as mulheres que ficam em casa. O documentário, silencioso, não precisa de palavras para que o publico identifique o quanto a estética é valorizada e priorizada na televisão; com fins lucrativos e metas inalcançáveis. Tais situações recordam o caso de Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) em Réquiem Para Um Sonho, de Darren Aronofsky; em que a senhora solitária e viciada em televisão toma atitudes drásticas para emagrecer e colocar seu antigo vestido vermelho, crendo que ao medir o tamanho imposto pela sociedade, ela preencherá o vazio em seu coração.

No outro, temos a violência vendida como entretenimento. As pessoas são cada vez mais postas diante das tragédias ao natural que elas passam a vê-la assim. Câmeras de segurança, assaltos, tiros em crianças e socos em mulheres: brutalidade comercializada e, de brinde, as notícias.

Outro elemento muito presente é a religião. Os programas, shows, palestras e vendas relacionados a esta fazem parte da cultura do Brasil. No entanto, como falado inclusive em um dos programas selecionados, cada igreja passa mais tempo tentando mostrar-se superior e mais certa que a outra do que passar as mensagens de amor e paz. A venda de indulgências fora apenas renovada, mas desta vez com ódio por aqueles que desejam a mesma paz, mas por vias diferentes.

O interessante é ver a mistura de elementos de qualidades tão diferentes, justamente como os diferentes espectadores. A continuidade de programas e produtos há anos é vista, assim como a notícia do dia: qual cidade irá sediar as Olimpíadas de 2016. A ansiedade e o entusiasmo da possibiidade do evento ser no país, ironicamente une as pessoas que se fragmentam o resto do ano.

O filme quebrou com o que se via de Coutinho, o documentário em formato de entrevista. Com uma montagem simples, Um Dia na Vida é a junção das cenas das televisão, sendo auto-explicativo e auto-suficiente. Um filme que inicialmente seria base para estudo, não foi visto pelo público nas grandes telas devido ao uso de imagem de terceiros. Ele consegue ser sóbrio e crítico, analista e, acima de tudo, um documentário que pode ser considerado um retrato de uma geração.

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