por Maurício Owada

Coutinho tem uma peculiaridade em seu cinema documental em buscar pessoas anônimas, pessoas desconhecidas, pessoas comuns e buscar dela um fragmento da história brasileira, mas não a contada em livros, revistas e TVs, mas aquela por trás dos grandes acontecimentos, aquelas que não interessam a ninguém, apenas a aqueles que descobrem cada vez mais o teor humano diante da megalomania dos eventos sociais que ocorrem por aí.

Peões é um documentário interessante devido ao contexto político, conforme o ano em que o espectador assiste a ele – por exemplo, assistir ele na época de seu lançamento (dois anos depois da eleição do presidente Lula) e assistir hoje (que seria, conforme a data, os eventos políticos e sociais que sensibiliza a estrutura ideológica do povo atualmente, com as denúncias da Operação Lava-Jato). A imagem de Lula, inevitavelmente, permeia o documentário – o símbolo da causa operária na época – através dos relatos daqueles que participaram da luta operária no ABC Paulista, que retomou a luta por melhores direitos, quando o regime militar dava seus últimos passos e o líder mais notório do movimento alcançava, passo a passo, a fama dentro do ativismo político e da própria política, quando se candidatou a presidente contra Collor.

Do sentimento de esperança que havia durante o primeiro mandato de Lula e atualmente, a desastrosa situação política após 13 anos de PT no poder no governo Dilma, demonstra um país em total transe (como o título do clássico filme de Glauber Rocha), aonde a relação da opinião pública + posicionamento político e social de grandes empresas + estrutura de poder do Congresso ao Plenário mudou de forma drástica em pouco menos de uma década.

Coutinho entrevista aqueles que estiveram na luta, mas passaram despercebidos devido a ambições que não eram nada políticos, o documentário constrói de forma eficiente um excelente retrato histórico recente do Brasil, intercalado com imagens de documentários como “ABC da Greve”, de Leon Hirszman e “Linha de Montagem”, de Renato Tapajós, cuja história sobre esse último filme é relatado por uma das entrevistadas, quando quase foi apreendido pela polícia. Mas o cineasta dá espaço para as revelações pessoais de cada um e mostra como o movimento e o rumo que o país tomava, influenciava na vida de todos.

Peões é interessante para hoje e será daqui a 10, 20 anos. Assim como Cabra Marcado Para Morrer, o documentário busca relatar uma parte da história brasileira, aonde a ideia de mudança na sociedade balança entre realidade e ilusão. Transições sociais que mexem com o ânimo de uma parcela do povo, seja nos anos 80, 90, 2000 ou agora, onde todas elas passam por processos, muitas vezes lento, devido a burocracia e os interesses dos mais ricos e conservadores. Peões não é um filme, é um registro que nos faz refletir sobre sociedade conforme a época em que se assiste.

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