por Maurício Owada

Os limites do cinema documental. É quando Coutinho entra na parte de experimentação e essa primeira tentativa lida com o fato de fazer um filme sobre a busca por um filme. Partindo para a região rural da Paraíba, o cineasta vai sem um lugar definido para entrevistar, sem um assunto específico e sem personagens para acompanhar. A busca não demora muito e partindo para o acaso, o cineasta se estabelece em uma comunidade rural.

Pouco divulgado dentro de sua filmografia, este marca a ruptura da forma de produção que seus filmes sempre vinham adotando desde Santo Forte. Não só na forma de produção, mas na forma de buscar histórias também – Coutinho se mostra à vontade pela primeira vez, encontra pessoas com quem conversa e o “microcosmo” não parte do pressuposto de se dar uma visão do Brasil, mas uma visão da vida e do nosso cotidiano. Entrevistando pessoas, em sua maioria, com mais de 70 anos. Desde a mais velha da comunidade, Dona Zefinha, passando pelo sabichão e performático Leocádio e Chico Moisés, um filósofo sertanejo de perguntas tão inquietantes quanto aos do cineasta, desarmando-o com sua dialética provinda mais de uma humildade do saber. É esse acaso que torna O Fim e o Princípio, talvez, em seu filme mais humano… o mais próximo da “verdade”, o inesperado sem ser previamente encenado.

Tendo Rosa como guia, Coutinho cria uma linha de diálogo que preza a quebra da desconfiança dos sertanejos, invade o cotidiano daquelas pessoas em busca de uma história e em seu epílogo, assim como é tão incerto como o acaso, Coutinho se despede daqueles que entrevistou sem saber se os verá no futuro, “daqui um ano”, como ele diz, quando exibir o filme a eles. O cinema de Coutinho no patamar mais profundo da definição de documentário, o registro da imagem sem roteiro, da história que se retira do inesperado, do saber vindo do mais simplório, do significativo trazido do lugar mais árido e pacato.

 

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