por Maurício Owada

Teatro ou cinema? Visto ou não visto? Como uma das professoras já me falou, não adianta querer fazer uma obra de arte com um cinema (ou teatro, ampliando a ideia da sentença) se ele servir apenas pra você ver e não chegar ao público. Desafiados por Coutinho, o Grupo Galpão deverá encenar a peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchekov, com o propósito de jamais estrear a peça – até que se estreasse o filme. O que temos é o recorte da peça, o filme no qual se “retira” Coutinho e a obra fica a mercê do acaso da improvisação dos atores do grupo na encenação e no ensaio da peça, em roupas comuns e utilizando do cenário do teatro, aquilo que não é visto no palco, como o camarim e as estruturas metálicas de iluminação.

Entre todas as obras de Eduardo Coutinho, ela emociona pela beleza do texto de Tchekov e a naturalidade e paixão nas falas dos atores do grupo, dirigidos por Enrique Diaz (por escolha do Grupo Galpão). Assim como define o documentário, a obra é permeada por imprevistos que fazem da “narrativa”, daquilo que está se retratando diante das câmeras e o que fica é a câmera a mercê dos atores e do texto melancólico que é encenado. Com certeza, se cria uma dúvida do que é este filme e a reflexão pode levar-nos a lugares distantes, mas que jamais chegamos, como a cidade tão estimada pelas irmãs, que dá nome ao filme. E é esse título que define a natureza da obra, aquilo que almejamos, mas não alcançamos, o “fora do quadro”, segundo a crítica Ilana Feldman. A idealização de algo e a representação incompleta da mesma, como as personagens que usam alguns acessórios para a cena, mas não há figurino. E em meio tempo, lembranças, reais ou inventadas, fazem parte do ensaio para a construção dos personagens.

Anúncios