por Maurício Owada

Ano vai, ano vem. Cada um é apenas um período de tempo determinado pelo olhar humano que determinou o período de uma hora, um dia, um ano, décadas, séculos… através do olhar sobre a natureza, a posição do Sol, as rugas que surgem em nossos rostos, das ideias que modificam a cada cultura vigente. Mas certas coisas permanecem, só mudam de cara… mesmo depois de anos, mesmo depois de ideologias e lutas que visaram a igualdade de classes, mas essa não é a principal questão do documentário Babilônia 2000, pelo menos, não explicitamente. A celebração de uma nova época, um novo milênio através do olhar esperançoso e humano de moradores das comunidades pobres da Babilônia e Chapéu Mangueira, assistindo ao réveillon em Copacabana, famoso bairro rico carioca.

Esse contraste já bastante forte trás diversas questões complexas, desde a desigualdade social, até questões mais humanas como futuro, morte e passado, que dialogam com temas político-sociais que trás um retrato de um país, que estava prestes a sair do século XX, menos a sua estrutura social. Trabalhando através de entrevistas como fez em Santo Forte, Eduardo Coutinho retira entrevistas espontâneas de pessoas com histórias que montam o mosaico de um lado do Brasil, o daqueles que moram em morro e sempre foram rodeados pela pobreza e pela falta de elementos básicos que devem ser proporcionados na metrópole.

A cada hora que passa, vemos pessoas se preparando para as últimas horas de 1999, algumas voltam do trabalho para descansarem e passar o ano novo com a família, como um preparo ritualístico sem nenhuma regra específica, sem nenhuma tradição – cada um vive seu ano novo ao seu modo, cada um com desejos específicos, expectativas diversas. Só se sabe (ou acredita) que a virada do ano deve ser festejado para trazer tudo de bom pela frente, numa fé que remete aquela citada na canção Alagados, do Paralamas do Sucesso – “a arte de se viver da fé, mas não se sabe fé em quê”

O envolvimento de questões sociais na verdade, são inseridas num contexto humanista, em como cada estória foi trajetada e como se pretende trajetar, cada anseio e esperança misturam-se com relatos passados. É a distância com que se vê os fogos de artifício que define o papel de cada um naquele lugar, mas é a celebração daquele momento que é voltado para um outro público pelos moradores do morro que demonstra essa ruptura com as paredes sociais, com essa divisão elitista, com esse conceito abstrato que, assim como qualquer outro, não é invulnerável a vontade do espírito humano.

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