por Maurício Owada

O Brasil passa por um dos momentos mais tensos em diversas questões sociais atualmente e com a ascenção e estabelecimento da bancada evangélica no Plenário, o discurso de ódio contra outras religiões, principalmente as afro-brasileiras se tornou alvo de pedras e gritos irracionais carregados de discursos odiosos vindos dos microfones de pastores, de vozes exaltadas e palavras que possuem tom intimidador ao tal “coisa ruim”, um show de horror que promete não só uma vida livre de maldições, mas com recompensas materiais, contanto que dê um aluguel da casa para a igreja todo mês (e essa falácia não é nenhum absurdo inexistente e infundado, procurem no YouTube). O documentário, gravado num morro carioca, não foi feito no período mais tenso para pessoas de religiões diferentes, mas assim como O Pagador de Promessas, Santo Forte retrata um Brasil misto, exús e santos se misturam, a tradição africana se funde com a fé cristã, a busca por respostas simples vindas do outro lado, depoimentos de pessoas de crenças variadas e histórias de vida que transcendem a fé e na qual buscam força para a pobreza e as dificuldades.

Os depoimentos que constróem o mosaico cultural brasileiro demonstra uma sociedade imposta pela crença cristã, que só se agarra nela de forma inconsciente pelo medo de não poder entrar no reino dos céus, mas ainda assim, não deixam se desgarrar de suas raízes. Cada depoimento trás um olhar multidimensional sobre o ato de crer e a força da fé: relatos de pessoas que viram ou receberam espírito de familiares, exús e pombagiras que se manifestam e até, uma delas que é ateia. Todo filmado numa comunidade carente no Rio de Janeiro, o documentário trás a situação socio-econômica para o contexto da fé como forma de sobreviver diante das dificuldades, não apenas temor e louvor por uma força maior, mas na esperança de coisas melhores. Apenas com depoimentos, a obra conduz o espectador a ver a religião de modos diferentes, introduzindo a visita de João Paulo II ao Brasil para mostrar o nível da força religiosa no nosso país, assim como o simbolismo da vinda do pontíficie.

Santo Forte é simples e poderoso em seus entrevistados e na fluência com que cada um conta suas histórias, aborda temas de modo complexo e abrem espaço para diversas vozes ecoarem em uma variedade imensa de religiões e crenças. E um assunto tão delicado, Eduardo Coutinho é bem sucedido em não assumir uma postura (ele odiava o tal cinema militante), já que quem constrói a obra são as pessoas comuns que o cineasta se dispõe a conversar, aonde a voz do documentarista aparece apenas para aprofundar nos detalhes e sentimentos dos relatos e sua imagem aparece raramente ou fica no canto da tela, que corta seu rosto totalmente virado, com seus cabelos grisalhos e óculos de armação preta em destaque, se colocando diante daquelas pessoas na mesma posição que nós: a de mero espectador.

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