por Maurício Owada

A história do Brasil foi recheada de diversos protagonistas de diversas origens, sejam os indígenas nativos, os exploradores portugueses ou, os escravos africanos – estes últimos, caçados e tirados de sua terra natal, levados em condições horríveis por navios negreiros, escravizados e comercializados pelos senhores de terra e comerciantes. As eras se passaram, a abolição da escravatura foi aprovada, o Império ruiu e a República surgiu com promessas de democracia e progresso, mas ainda conservava as velhas estruturas de poder, como o coronelismo, mesmo com a Revolução de 30 que ascendeu Getúlio à presidência e trouxe leis trabalhistas mais amplas.

No outro lado, Gabriel Joaquim dos Santos, filho de ex-escravos, um homem que nunca saiu do campo cuja memória é revisitada por seu diário, onde suas singelas e simples palavras esbanjavam humildade e sabedoria, entonada na voz vigorosa, mas calma de Milton Gonçalves. A trajetória de um homem que possuia um talento artístico, “a força da pobreza” como ele dizia, que o fez construir a Casa da Flor, uma obra de arquitetura espontânea feita a partir de azulejos, cacos de vidros e outros materiais jogados no lixo, compondo uma casa rica em imagens e formas. O documentário explora a persona do senhor negro que era um artista nato, sem formação e sem instrução, aonde cada trecho remete ao um tópico relacionado a situação atual da população afro-brasileira.

Eduardo Coutinho explora poeticamente Gabriel Joaquim, enquanto aproveita de seu passado como repórter para dar voz a diversas pessoas de cor escura, seja sambistas, mães de santo, meninos de rua… como sempre ficou estabelecido em suas obras, a voz do semelhante era muito mais importante do que o diretor queria dizer. A quantidade de informações sobre candomblé, samba, rap e hip-hop, racismo,política, educação, violência e crime, elementos culturais e sociais semprepresentes na vida dos negros, aonde reivindicações gritam pela legitimação de seu papel na sociedade, que ainda gritam de orgulho pela cor de pele que tem, que gritam para que os direitos “conquistados” sejam colocados em prática, que gritam para que a cor não seja sinal de desconfiança. Que gritam para serem respeitados.

Dividido em duas partes de uma hora cada, o documentário é realmente dividido pelo tom contemplativo sobre Gabriel e o jornalístico, que fica a mercê de opiniões, relatos e situações, como o episódio aonde um homem branco grita: “uma pessoa que tem 51% das ações numa empresa é o presidente, e os negros são mais de 50% da população”, enquanto uma senhora negra protesta contra a sexualização da imagem da mulher negra, aonde protesto e discurso sobre meritocracia guerreiam aos berros no meio da rua, para que sejam compreendidos. Algo que não mudou muito, desde lá.

O Fio da Memória, como seu título sugere, busca entremear nas raízes da cultura afrobrasileira, as origens e a verdadeira história de um povo que é sub-representado na civilização nos últimos anos, sendo ignorado pelos livros didáticos. O Fio da Memória é um documentário de importante valor histórico, que assim como Cabra Marcado Para Morrer, busca deixar vivo na memória, o trajeto de um povo que foi feito num país, que ainda herda traços da colonização portuguesa.

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