por Liana Nespoli

João Pedro Teixeira, líder das ligas paraíbanas, foi assassinado em 1962. Quem mais, além de Eduardo Coutinho, executaria um filme semi documental sobre a vida de João Pedro, mesmo depois das filmagens serem interrompidas brutalmente em 1964 após o golpe militar? Acusados de comunismo, muito membros da equipe foram presos na época, porém Coutinho nunca se deixou abater e 17 anos depois o trabalho foi retomado. A história de João Pedro não poderia ser deixada em branco. Após reencontrar os negativos do filme, voltou ao nordeste à procura de novos atores e não encontrou ninguém mais, ninguém menos que a viúva Elizabeth Teixeira, assim como outros participantes do movimento e membros de sua família.

Antes em 35 mm, preto e branco e sem gravação simultânea de som, foi retomado como documentário em 16 mm e colorido, onde os personagens, ao observar essas antigas imagens, descorrem sobre suas memórias e suas trajetórias de vida depois do golpe de abril de 64.

Um documentário que consegue, através da história de alguns camponeses, criticar a ditadura, a mídia e o conservadorismo da população brasileira. Um documentário que faz o excelente e difícil exercício de conciliar trajetórias individuais a esse contexto político do país (contexto dos mais duros, violentos e omitidos) de modo que não só nos apresenta a essa mulher e sua família, mas como também a essa ditadura que também torturou, repreendeu e caçou outros camponeses, pessoas que lutaram pelo seu povo, estudantes, pessoas pobres e que estavam fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo.

As perguntas que esse contexto nos desperta, nos emocionam quando encontramos suas reais respostas. O que aconteceram com essas pessoas durante esse período e o que foi necessário pra conseguir sobreviver?

Cabra Marcado para Morrer não é um filme apenas sobre o golpe militar; é sobre as pessoas que viveram na amargura desse período e também sobre a reforma agrária. Independente das vertentes políticas ou ideológicas, a injustiça social deve ser combatida em nome da humanidade, e figuras como a dona Elizabeth nos inspiram e mostram que é sim possível. Vemos também como uma obra-prima, antes inacabada, encontra enfim, seu merecido final mesmo depois de tantos anos.

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