por Maurício Owada

Assim como foi o faroeste no cinema americano, os filmes samurais no cinema japonês, os filmes de cangaceiro (que diferentes do cowboy e do samurai, a sua figura permeava entre diversas camadas: assassino, homem livre, macho, “Robin Hood” etc) permearam no cinema brasileiro, povoando o imaginário e inspirando manifestações artísticas sobre eles e seus valores, mas jamais figuravam entre os mocinhos, mas o homem macho. O oeste americano era o lugar selvagem aonde a chegada da civilização era certa, mas aqui no Brasil, a civilização é tão brutal quanto a força da natureza sobre o povo nordestino… não somos o “povo escolhido” e parece que paira sobre o sertão, uma sina irreversível e cíclica, alimentada pelo sol ardido, o chão rachado, o rebanho em ossos, e em terra assim, só sobra espaço para a mão no facão contra os senhores ou as lamentações do povo esfomeado. Jamais o sertão foi cenário para filmes que terminam otimistas como os faroestes convencionais e não carregam a grandiosidade dos processos históricos que substituem a brutalidade pela ordem, a katana pelas armas de fogo. O Nordeste é um lugar esquecido, jamais visto pelas autoridades de forma plena… sempre abandonada, e assim se cria fenômenos sociais como cangaço, resultado da raiva e revolta pela tirania de senhores que possuem o aval da lei para mandar e desmandar.

Entre a brutalidade do homem e da natureza, Eduardo Coutinho encontra nos textos do dramaturgo William Shakespeare, o espaço para explorar sobre os rumos do Nordeste e do próprio cangaço, encontrando seu Billy, The Kid em Faustão, um líder de um bando que salva Henrique, um rapaz da família Teixeira que é atocaiado pela família rival Araújo. Com fim de ganhar um dinheiro, o cangaceiro pede um resgate em troca do rapaz que se torna seu refém, mas aos poucos, Henrique adentra em meio ao bando e se torna parte do bando e a guerra promovida pelos Teixeiras vai atingir tanto Faustão quanto Henrique, o que farão com que se unam e se tornem grandes amigos, companheiros de cangaço.

Inspirado pelo texto de Shakespeare, a peça Henrique IV, Coutinho prefere dar atenção para o personagem Falstaff, um arruaceiro boêmio que se torna amigo do rei e justifica o subtítulo e prefere dar o foco nesse personagem, enquanto o rei Henrique se torna o coadjuvante, o rapaz de família de coronéis que endurece e amadurece sob a clandestinidade, para assim ter a força para assumir as terras de seu pai e sua autoridade na região. Faustão é um personagem construído de forma incrível por Eliezer Gomes, ator de carisma e presença, trás um aura de fatalismo em sua jornada, um homem que aceitou seu destino e “não arreda o pé” do caminho que lhe foi designado ou, moldado pelo sertão seco e pela condição social que decidiu transgredir como uma forma de legitimar sua “macheza”, algo parecido com o modo que Don Vito Corleone age na sociedade: a legitimação de sua masculinidade no papel de opressor ou de transgressor, impondo a honra e o respeito de forma distorcida, para assim sobreviver. Se a lei do homem não beneficia o mais pobre, o negócio é bater de frente.

A narrativa vai se construindo até um clímax digno da dramaturgia shakesperiana, Eduardo Coutinho mostra dois personagens de origens e status sociais distintos numa terra árida e sangrenta, cujos caminhos os levam a um momento considerado inevitável, mas só mostra o homem determinado a seguir a trilha de um pensamento determinista, como se não houvesse outro jeito. A história se desfecha de forma dramática, direcionado por indivíduos com uma filosofia de que se deve pagar sangue por sangue, o cangaço caindo de forma retumbante pela perseguição destemida pelo governo Vargas, assim como os bandidos da Grande Depressão e assim fica: o bandido mortocomo exemplo, o governo temido e respeitado, mas o sertão… ainda permanece o mesmo, permeado por morte e miséria, no seu curso normal para que não incomode – um Nordeste brasileiro doente, mas que fique lá, deitado e quieto, em seu leito… em silêncio.

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