por Maurício Owada

São poucos cineastas em idade tão avançada que demonstram tamanha inquietude no modo de fazer cinema. Apesar de ser um documentarista, o paulista Eduardo Coutinho jamais foi do tipo que repetia fórmulas, pelo menos, não trazia sempre a mesma coisa em seus trabalhos. Não ficava à mercê nem de seu ego, nem escravo total de uma linguagem didática comum no gênero. De seu primeiro contato com cinema aos 21 anos no MASP, jamais parou de fazer cinema… ou pelo menos, aproveitava as oportunidades que surgia.

Na sua juventude, após ganhar um prêmio em dinheiro num concurso de perguntas e respostas sobre Charles Chaplin, o jovem aspirante a cineasta mudou-se para Paris para estudar direção e montagem no IDHEC, quando realizou seus primeiros trabalhos. Voltando para o Brasil em 1960, trabalhou na montagem da peça Mutirão em Nosso Sol, e teve contato com nomes importantes do Cinema Novo, o que o levou a ser o gerente de produção de Cinco Vezes Favela, marco do movimento cinematográfico. Aceitar o trabalho lhe deu a oportunidade de viajar para o Nordeste, aonde acabou filmando o comício de Elizabeth Teixeira, viúva do líder das Ligas Camponesas,João Pedro Teixeira – estava dado o argumento para seu primeiro grande projeto, que só seria finalizado depois de mais de 20 anos: Cabra Marcado Para Morrer.

Com o Golpe de 64, parte da equipe de filmagem de um filme ficcional – cujos personagens seriam encenados pelas próprias pessoas (tirando o líder camponês), como a viúva Elizabeth – foram presos por subversão e propaganda comunista. Tendo que se esconder e o restante se dispersando, foi filmado apenas 2 semanas e o projeto não veria a luz do dia por um bom tempo. Após isso, constituiu ainda nos anos 60, junto com Leon Hirszman e Marcos Faria, a produtora Saga Filmes, aonde sairiam clássicos nos quais atuaria como roteirista de Hirszman, como A Falecida (baseada na peça de Nelson Rodrigues) e Garota de Ipanema, e dirigiu um episódio do longa ABC do Amor e foi diretor substituto de O Homem Que Comprou o Mundo (1968), uma sátira política influenciado por Terra em Transe.

Nos anos 70, enquanto tentava ganhar a vida no jornalismo, como revisor e crítico de cinema no Jornal do Brasil, manteve-se no cinema e adaptou Shakespeare para o sertão árido, nos tempos do Cangaço, transformando o personagem marginal Falstaff no cangaceiro Faustão (1971), personagem-título interpretado por Eliezer Gomes. Ainda continuou trabalhando como roteirista de filmes, sendo um deles, o marco de crítica e público Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto.

Em 75, foi convidado pela TV Globo para trabalhar no programa Globo Repórter, o que possibilitou a entrada definitiva de Coutinho no documentário, usufruindo de uma liberdade editorial numa época que a censura reinava no Período Militar. Acabou fazendo filmes em 16mm para a televisão, como as reportagens Seis Dias em Ouricuri e O Pistoleiro da Serra Talhada, ambas em 1976 e o mais famoso, Theodorico, o Imperador do Sertão, em 1978.

Mas foi em 1981, que Coutinho se reencontra com seu primeiro grande projeto e o remodela, a modo que faz sua primeira obra-prima: Cabra Marcado Para Morrer. Com negativos encontrados, após ser escondido da polícia por um membro das filmagens, ele decide abordar sobre o filme interrompido e falar da situação da viúva Elizabeth e seus filhos após a Anistia, que tirou tanto perseguidos do regime da clandestinidade quanto oficiais e políticos da época de um possível julgamento por infração de direitos humanos. O documentário foi finalizado em 1984 e ganhou o prêmio FIPRESCI (prêmio da crítica) no Festival de Berlim.

Coutinho mais uma vez volta ao documentário cinco anos depois, finalizando O Fio da Memória, em 1991, um filme sobre a história e cultura do povo afrobrasileiro. Mas foi em 1999, que o cineasta estabeleceria uma produção de documentários que o levaria a se tornar um dos maiores de nosso país, com Santo Forte, seria amplamente premiado no Festival de Brasília e no Festival de Gramado, primeiro longa em parceria com a montadora Jordana Berg, que trabalharia até o último filme de Coutinho. Com o sucesso, o documentarista acaba fazendo uma parceria com a Videofilmes, do também documentarista João Moreira Salles, entre 2000 e 2011, sendo premiado trê vezes no Festival de Gramado e um Kikito de Ouro pelo conjunto da obra – nesse meio tempo, dirigiu filmes como Babilônia 2000, Edifício Master, Peões, e começando a buscar os limites de seu próprio cinema e dos elementos que o rondam com O Fim e o Princípio, Jogo de Cena e Moscou. Depois foi lançado Um Dia na Vida, que é uma gravação de um dia inteiro normal da televisão brasileira, demonstrando a chuva de discursos que recheiam a mentalidade do povo brasileiro e enfim, seu último que finalizou, chamado As Canções.

Em 2014, num domingo trágico, o documentarista paulistano Eduardo Coutinho falece, vítima de facadas feitas pelo seu próprio filho, que sofria de esquizofrenia, em seu próprio apartamento no Rio de Janeiro. Apenas com o material filmado no qual trabalhava, João Moreira Salles assume o comando da pós-produção e Jordana Berg na montagem, fazendo deste seu filme-testamento, colocando seu realizador como personagem integral, algo que não acontecia em suas obras, sempre ficando no canto ou fora da tela, intitulando-o como Últimas Conversas.

“O filme militante é uma tragédia porque já está escrito antes. Convencer o já convencido é terrível, fazer um filme para convencer alguém é terrível.”

Eduardo Coutinho, para a Folha de S. Paulo (2013)

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