por Maurício Owada

Talvez seja pouco comum na América Latina, haver séries e outros produtos audiovisuais que se aproveite de um cenário de época e temática exótica. Acostumado com dramas sobre a realidade atual, a HBO Latin America lançou em sua programação, uma série cuja primeira temporada durou 8 episódios – O Hipnotizador.

Protagonizado pelo argentino Leonardo Sbaraglia, a série é uma produção da renomada RT Features, de Rodrigo Teixeira (que produziu o elogiado O Cheiro do Ralo e o americano Frances Ha), que demonstra todo o peso da importância da produtora atualmente no mercado, pelos gastos aparentes na construção da cidade sem nome que serve de cenário para a trama de um hipnotizador misterioso e sem memória chamado Arenas. Condenado por um transe a nunca mais dormir, assumindo uma estrutura de “um caso por episódio”, no qual através do método (que aqui, assume como um poder, uma ferramenta perigosa em mãos erradas), pode se desmembrar fragmentos mal juntados de lembranças e desejos reprimidos.

Assim como Narcos inovou por ser uma série americana bilíngue (inglês e espanhol), nesta série, temos atores brasileiros, argentinos e uruguaios dividindo a tela numa coexistência do português e espanhol, que traz todo um charme no estilo europeu decadente presente na locação de Montevidéu, que contribui enormemente para a direção de arte e a fotografia, que abusa do tom sépia para retratar o clima noturno dos anos 20. Mas O Hipnotizador não é o produto típico de consumo fácil – o ritmo dos episódios e das cenas é mais lento, numa co-direção de Alex Gabassi (da O2) e José Eduardo Belmonte (que fez Billi Pig e Alemão), é aí que reside num dos problemas. Enquanto Belmonte, mesmo numa trama que se desenvolve mais lentamente, as cenas dirigidas por ele possui um ritmo mais regular nos episódios que dirige, enquanto Gabassi esbanja belos enquadramentos e pouco desenvolvimento das atuações e dos enquadramentos que utiliza, o que cria uma irregularidade não só de ritmo, mas até mesmo de qualidade, cuja narrativa se salva nas mãos dos roteiristas, em que um deles é um dos autores da própria HQ, Pablo de Santis.

Mas a escalação de elenco conta muito bem com atores competentes, como Leonardo Sbaraglia (que atuou na série argentina da HBO, Epitáfios), assim como grandes nomes como Bianca Comparato, Chino Darín e César Troncoso, e os coadjuvantes que atuam no Teatro Rex, local onde acontecem as hipnoses, como Ondina Clais Castilho que interpreta o contra-ponto de Arenas, a vidente Zoraide que vê o futuro e o relojoeiro Castor, aliado do vilão Derek (Chico Diaz), interpretado por Miguel Lunardi, assim como participações especiais de Gero Camilo e a portuguesa Maria de Medeiros. Um grande elenco que trás maiores credibilidades a uma trama intrigante, em que sonhos, charlatanismo e sugestões hipnóticas podem se confundir, em meio a um contexto fictício que remete a história política da América Latina, com certos elementos de steampunk.

O Hipnotizador não é um primor, mas difere de suas outras produções estrangeiras em solo latino-americano pela temática, cujo final aberto deixa mais perguntas da relação de Arenas ao misterioso médico Dr. Corelli, na pele do cineasta Ruy Guerra, expoente do Cinema Novo com filmes como Os Fuzis e Os Cafajestes. Mas falta maior estofo e cuidado na misé-en-scene e num melhor desenvolvimento dos personagens, fazendo com que muitos fiquem na base da funcionalidade para a trama apenas, como o dono do hotel (Troncoso) e sua assistente(Comparato), cuja relação de amor implícito fica mais evidente no final da temporada. Espera-se que na segunda temporada, a série ganhe mais fôlego, pois já possui bastante elemento temático e estético para fazer sucesso na TV.

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