por Yuri Ledesma

Filme experimental. Aquele filme que pode provocar um rebuliço numa sala de cinema comercial. Mas como um filme desses pode ser apreciado? É com esse estranhamento do espectador que iniciamos, ao assistirmos a abertura de Império dos Sonhos. Um letreiro com o título é revelado com uma fotografia carregada de um som estridente e incômodo, nos leva para o mundo fílmico do diretor, escritor, fotógrafo, pintor e compositor norte-americano David Lynch.

Um filme de uma mulher em crise. Suscitando uma perturbação extrema seguida de paz de espírito. Uma experiência chegando a ser diferente de outros filmes convencionais experimentais, que trazem uma lógica ainda mais fragmentada de sensações. Lynch mistura com maestria, cenas se assemelhando com a do cinema convencional, e brinca com isso por parte da história se passar em Hollywood, por exemplo. O mérito do espectador é de montar o quebra-cabeça ou apenas sentir através do fluxo de imagens ao que somos apresentados.

Rato morto num porão escuro. Céu com uma linda flor. A. BBB. A. 57. Aonde está ela? Para um texto convencional, fugir dos padrões parece algo falho e que quebra a lógica subversiva. “Às vezes, não se conta a história toda” – é com essa frase que um dos personagens diz, que podemos usar para seguirmos a nossa intuição ao assistirmos ao filme. O próprio filme nos dá a pista. Se fôssemos assistir como estamos acostumados, relevando a lógica subversiva da maioria dos filmes convencionais, com início, meio e fim, podemos chegar a uma conclusão confusa. Sugiro assistir ao filme com o intuito de não pensar nesses padrões de pensamentos, mas escapar para um universo de pensamentos de nossas lembranças vivenciadas ou experimentadas por cada um de nós.

Num filme comercial como este, espantou-me de imediato saber que o filme foi rodado num digital que nem HD foi. A câmera utilizada foi a mesma que utilizei anos atrás no meu vídeo de trabalho de conclusão de curso de cinema e audiovisual no CEUNSP, uma modesta Sony PD-170, porém com um propósito. Assim como um quadro nos suscita uma determinada sensação ou com uma música, sendo abstrata, suscita sentimentos em nós, essa outra seguinte frase extraída do filme: “A iluminação não está no lugar certo”, implica que devemos esquecer a fotografia convencional, difusa e alegre como a de comerciais publicitários para adentrarmos numa fotografia dura, contrastada e com grandes preenchimentos de preto ao longo do filme que nos suscita a tensão no caso desse filme. Como diria o próprio diretor em seu livro publicado no Brasil, “Em Águas Profundas”, ele gosta de mostrar a escuridão nas imagens dos seus filmes, pois desperta uma área desconhecida que permite dar asas à nossa imaginação.

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