por Kelly Soares

Cidade dos Sonhos é um filme longo, de quase duas horas e meia de duração, com um clima de mistério e suspense, tudo coroado por uma boa dose de surrealismo. Lynch constrói o filme com vários núcleos diferentes que vão se juntando conforme o  filme vai correndo pela tela. Mas nada tem uma ligação óbvia, as situações podem parecer o que não são. Enfim, é como se houvesse um véu na frente da câmera (simbolicamente, a imagem do filme é claríssima), e as sombras por trás fossem completamente deixadas à interpretação do espectador.

Um violento acidente de carro, por mais bizarro que pareça, salva a vida de Laura (Laura Harring), uma morena que se perde pelas ruas da cidade até encontrar uma casa para dormir. O acidente afeta a memória da garota, que simplesmente não lembra quem ela é e porque carrega uma pequena fortuna dentro da bolsa. Para não parecer maluca, ela decide se assumir ao nome de Rita, após ver um pôster de Gilda (clássico filme interpretado por Rita Hayworth) na parede. Então, ela se apresenta a Betty (Naomi Watts), a sobrinha da dona da casa que foi invadida por Rita.

Mas antes de chegarmos a esse ponto, temos construída uma base aparentemente linear para a história. Sabemos que Rita é somente um nome aleatório escolhido para identificar a mulher estranha que apareceu escondida no novo apartamento de Betty, depois de ter sofrido um acidente de carro e perdido a memória. Rita quer saber de onde veio, quem é e para onde estava indo com aquela bolsa cheia de dinheiro quando houve o acidente que lhe roubou as lembranças. Betty acaba de vir do interior com o sonho de virar uma grande atriz de Hollywood, mas diante do problema daquela mulher misteriosa e sem nome, foi impossível ficar indiferente e agora ambas devem descobrir os passos que Rita percorreu até chegar ali. Do outro lado de Los Angeles, se desenrola a história do cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), que é obrigado pela máfia a escalar determinada atriz para protagonizar seu próximo filme.

No filme, sempre podemos notar um ar de ameaça, mas nunca podemos decifrar o que realmente esta acontecendo. Podemos entender basicamente a ligação entre os dois atos através da sequência da festa na casa da mãe do cineasta, quando Camilla (Laura Harring, novamente em outra persona) cruelmente anuncia seu noivado na frente de Diane (Naomi Watts, novamente também).

Quase todos os acontecimentos que se desenvolvem nessa festa ganharão uma representação no “sonho” de Diane, na primeira metade do filme. O ódio que ela desenvolve por Camilla a faz juntar uma quantia absurda para contratar um matador de aluguel, que lhe dará uma chave azul como garantia do término do serviço, e isso se reflete no sonho através da bolsa cheia de dinheiro e com a caixinha azul de Rita. A misteriosa Camilla Rhodes do sonho, a atriz que querem obrigar Kesher a contratar, também é uma das convidadas da festa, que troca um selinho com a verdadeira Camilla durante o jantar. Ou seja, os acontecimentos dessa festança formam juntos a força propulsora para que Diane decida matar sua amada e depois venha a sonhar com tudo isso, misturando tudo em seu subconsciente, que devolve as informações em uma versão nova, onde tudo parece acontecer nos conformes segundo as vontades da sonhadora.

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