por Antonio Lopes Júnior

 

“Norma… I see you in my dreams”

Bobby Briggs, para Norma Jennings, antes de virar-se e sair da icônica lanchonete que habita o universo de Twin Peaks, no primeiro episódio de uma das mais relevantes e cultuadas obras da carreira de David Lynch.

Este único diálogo, ainda que não tenha peso direto na trama, abre em seu espaço textual uma breve epígrafe de tudo o que cerca a pequena cidade de Twin Peaks e o trabalho de Lynch: A profunda imersão na mente do ser humano, não apenas em uma dimensão onírica, mas inclusive – e principalmente – na dimensão das faculdades do indivíduo: sua moral, seus segredos, seus medos, ambições, desejos.

Em suas obras, David Lynch agarra os fragmentos da humanidade nessa imersão da consciência e traz à tona, materializando em seus filmes, em um plano palpável, aquilo que se rasteja sob a nossa mente.Não haveria descrição melhor para Twin Peaks do que um plano físico onde habitam os demônios dos nossos medos, loucuras, desejos e mistérios. Passar pela pequena placa que conota o nome da cidade e sua população de pouco mais de 50 mil habitantes é ingressar nas entranhas da mente humana.

A série de 30 episódios discorre sobre as investigações do assassinato da jovem e popular Laura Palmer na cidade de Twin Peaks, no norte dos Estados Unidos. O personagem principal da história, o agente do FBI Dale Cooper, uma inusitada figura cuja personalidade coexiste em um lado místico e um lado material, é encarregado da investigação e durante a série acompanhamo-lo em seu desbravamento de uma cidade onde todos parecem se esconder sob uma teia de segredos. A série possui uma estrutura narrativa que lembra as soap operas, com vários plots secundários correndo em paralelo com a história principal e a multiplicidade de co-protagonistas conforme as histórias se cruzam.

UNITED STATES - DECEMBER 12: TWIN PEAKS - Gallery - Season One - 12/12/89, Homecoming queen Laura Palmer is found dead, washed up on a riverbank wrapped in plastic sheeting. FBI Special Agent Dale Cooper (Kyle MacLaughlin) is called in to investigate the gruesome murder in the small Northwestern town of Twin Peaks. Sherilyn Fenn stars as Audrey Horne, the teenage daughter of a wealthy businessman. , (Photo by ABC Photo Archives/ABC via Getty Images)

Twin Peaks foi uma sensação entre o público jovem durante sua exibição, tanto nos EUA quanto internacionalmente. Os atores chegaram a estrelar propagandas comerciais de café no Japão e a pergunta que não calava nas rodas de amizades no dia após cada episódio era: “Quem matou Laura Palmer?”. A série decaiu – em qualidade e popularidade – na metade da segunda temporada, após a prematura revelação do assassino e a saída de David Lynch da produção, voltando à sua glória nos últimos episódios, quando Lynch reassumiu a série para fechar as questões que ainda estavam em aberto. Apesar de a série terminar com maestria, o cancelamento a este ponto era inevitável, deixando uma geração de fãs órfãos e transformando a série em um ícone cult.

Mas o que, afinal, faz de Twin Peaks um fenômeno e coloca-o na seleta lista de “Quality Television” por vários acadêmicos? Afinal de contas, onde reside a suposta genialidade de Twin Peaks quando inúmeros outros programas de televisão como Lost, Breaking Bad, ER, Arquivo X igualam o feito arrebatando colossais legiões de fãs e na última década, uma enxurrada de séries inspiradas pela HBO pós-Sopranos tem sido lançadas, cada vez com narrativas mais complexas e produções de grande porte?

O que coloca Twin Peaks nesta posição é a inspiração artística de David Lynch, na composição de algo que a televisão nunca antes havia visto. Lynch transpõe elementos visuais e sonoros, de forma aguçada, do seu cinema para a televisão, com uma linguagem inteligente e criativa. Enquanto muitos diretores de séries de televisão – até mesmo nestes últimos anos – preferem trazer do cinema apenas um estilismo romântico de câmera e luz, com planos sequência, ângulos diferenciados e uso de referências, Lynch realmente trouxe aquilo que havia em seu cinema para a TV: A imagem como uma poesia independente. Seu modo de trabalhar influenciou todos os demais diretores da série, que disseram colocar todo o potencial criativo com a liberdade que não tinham em outros projetos.

Para materializar a ideia deste potencial uso da imagem, podemos tomar o primeiro episódio da série, um dos episódios dirigidos por Lynch, e extrair dele alguns exemplos práticos.

Há vários aspectos importantes e interessantes que o diretor trabalha e que foge das características normais de séries de TV na época. Uma das primeiras a serem notadas é a forma como o diálogo é construído. “Ela está morta. Enrolada em plástico”. Isto é tudo que Pete Martell diz para anunciar que acabou de encontrar o corpo de Laura Palmer. Ele não diz nome, não diz o que aconteceu, não diz como aconteceu, não diz detalhe nenhum. Sua voz trêmula, a postura desconjuntada, o som da natureza ao amanhecer acompanhado pelos apitos da serralheria ao fundo aliados à esta linha de diálogo que diz muito menos do que poderia ser dito nos faz sentir imediatamente que Twin Peaks é uma cidade de mistérios.

Quebrar com o didatismo no diálogo não é a única coisa que Lynch faz com a sua obra. Na concepção de imagem, há vários exemplos da criatividade de Lynch que perduram através do episódio. Em outra cena, quando Sarah Palmer percebe o sumiço da filha de casa, ela corre para o segundo andar, procurando Laura no banheiro e em seu quarto. A câmera captura toda a ação em um contra-plongée fixo que enquadra a escada e o ventilador de teto ligado, no segundo andar. Com a câmera parada e o quadro vazio, o único movimento que chama a atenção aos nossos olhos é o giro ininterrupto do ventilador de teto. O vazio nesta cena suscita com ferocidade o vazio físico na casa, deixado pelo desaparecimento de Laura. O plano corta para um close do ventilador ligado. O único som presente no ambiente é o das espátulas cortando o ar, ampliando o suspense e o presságio de algo horrível que acontecera.

O mesmo plano se repete, quando Sarah está ciente do assassinato da filha. Completamente desolada, ela está estirada no sofá sendo amparada pelos amigos e prestando depoimentos aos policiais. O plano surge como o ponto de vista da personagem: As escadas, o silêncio, o ventilador girando. Outra vez o vazio se estende através da cena e toma conta do universo diegético através da expressão desta brilhante composição de imagem. Agora, não mais o vazio físico da ausência de Laura, mas sim o vazio espiritual do luto. O plano volta a se repetir uma última vez ao fim do episódio, já ao anoitecer. O vazio agora é o da verdade:Girando na escuridão, o ventilador é a presença do mistério que se descarrilhará pelos próximos episódios da série.

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Um único plano, estático e sem diálogos, de uma escada e um ventilador ligado consegue suscitar mistério, luto e medo sem a necessidade de nenhuma explicação narrativa didática. Essa imagem habita com força as lembranças de qualquer fã da série. É neste tipo de composição que David Lynch consegue tocar o sensorial do espectador e suscitar densas camadas de percepção através da imagem. Quando conseguimos extrair tantas coisas de uma única composição estática de imagem, já podemos sentir a potencial presença do universo criativo do diretor, mesmo quando trabalhando em um suporte que exige uma comunicação para a massa. Visto sob este ponto de vista, Twin Peaks parece muito mais cinema do que televisão.

A mesma edificação de imagens a qual estávamos acostumados no cinema de David Lynch, ele traz para a televisão, de um modo que ninguém havia feito antes. O uso do foco profundo na cena em que Leland Palmer recebe a notícia do falecimento da filha é tão acertivo que é quase impossível pensar em algo mais eficiente: Leland sentado, de costas para uma janela e porta de vidro fala ao telefone com a esposa sobre o desaparecimento da filha. Ao fundo, a caminhonete do xerife freia bruscamente. O xerife desce da caminhonete, caminha na direção da câmera e passa por direto ela, sem ver Leland sentado. No instante seguinte, Leland fala ao telefone: “O xerife Truman…”.

Antes mesmo da aproximação de Truman e Leland, imediatamente, pai e mãe, a cada lado da linha, compreendem em espírito, como um pressentimento materno/paterno, o que está acontecendo, e desabam emocionalmente. Novamente, não há aqui necessidade do anúncio formal ou de explicações mais densas: as relações dos personagens residem outra vez através das palavras não ditas.

Lynch também trabalha de forma minuciosa suas sequências de forma que a montagem extraia o máximo de força dramática dela. Quando Donna Hayward, a melhor amiga de Laura, percebe a ausência desta na sala de aula, Lynch opta por uma sequência de imagens que mostra dois policiais entrando na sala para conversar com a professora de forma inaudível, uma aluna que passa pelo pátio ao lado de fora da sala de aula correndo aos gritos e então, a carteira de Laura vazia sob o ponto de vista de Donna. Esta sequência de imagens, que se prolonga pela cena carrega uma tensão crescente e resolve, sem que uma sequer palavra seja trocada entre os personagens, todo o ocorrido com uma força narrativa exemplar.Mais adiante, ao invés de optar por uma sequência óbvia no momento em que o diretor da escola anuncia aos alunos que Laura Palmer foi encontrada morta, Lynch transfere da imagem do diretor no microfone do circuito interno de comunicação para um plano de travelling, da câmera avançando através do corredor vazio da escola. Não há nenhum aluno do lado de fora, e de cada lado do corredor os armários se enfileiram solitários, com a voz oscilante do diretorecoando através do corredor. Outra vez o uso do vazio cumpre com força excepcional a necessidade dramática da cena. David Lynch poderia cortar do diretor da escola para os rostos dos alunos, em choque, mas opta por uma solução mais simples, mais eficiente, mais poética e menos óbvia. Assim como os diálogos incompletos impulsionam um sentimento de mistério através das cenas, a imagem incompleta aqui toma o mesmo papel.

Por vezes, a maneira como Lynch imagina e organiza estas imagens aliadas ao “incompleto”, que age em função do mistério, assume uma atmosfera hitchcockiana, causando o suspense que imediatamente se converte na euforia do medo. No episódio piloto, um exemplo claro disso é a cena em que Bobby Briggs dá carona à garçonete Shelly Johnson, com quem está tendo um caso amoroso, independente de ambos serem compromissados. Bobby dirige pela rodovia principal de Twin Peaks, com Shelly ao seu lado e ambos se mostram despreocupados, visto que o marido de Shelly está viajando e Laura supostamente está na escola.

Quando o carro se aproxima da casa de Shelly, Bobby freia bruscamente e exclama em espanto. Shelly olha assustada para frente. A imagem corta para a casa de Shelly, com um caminhão estacionado a frente. Shelly, desesperada, diz para Bobby recuar de ré.

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A imagem do caminhão que irrompe na tela entre um momento de descontração e um momento de desespero assume sua forma de uma entidade imponente e maligna na tela. A aura de suspense criada em torno da figura do caminhão, que sugere que o marido de Shelly está em casa é virulento o suficiente para trazer à tona todo o medo que se esconde por trás do triângulo amoroso dos personagens. Lynch consegue, mais uma vez, por meio de uma construção visual criativa e pouco óbvia, suscitar a fundo emoções nos espectadores.

Essa e tantas outras composições visuais que Lynch e os demais diretores fazem ao longo da série, consolidam-na como uma obra-prima da televisão americana. O olhar aguçado à série é capaz de identificar como a linguagem tem seu papel imponente em arrebatar os espectadores para um universo sombrio e misterioso. A forma da narrativa, tão complexa e visceral, é tão misteriosa quanto o seu conteúdo.

A narrativa sonora é tão presente quanto a visual. Com um tom soturno e sedutor, a trilha sonora, composta por Angelo Badalamenti e com algumas músicas cantadas por Julee Cruise é um elemento vital na obra. Muito da força de Twin Peaks apoia-se em sua música. A música tema de Laura Palmer inspira mistério, medo e tristeza em um só conjunto de harmonia. O som da natureza que rodeia Twin Peaks também mostra sua eficiência na narrativa: a cachoeira que cai ao lado do hotel, o uivo do vento e seu farfalhar nas árvores, o pio das corujas, o rio corrente, são elementos que abraçam, e por muitas vezes, coordenam o universo dos personagens.

A natureza inclusive, por si, é um personagem à parte na série. Ela desempenha o papel de uma existência mística que guarda seus próprios segredos, além dos habitantes da cidade. Dois planos metafísicos coabitam o espaço de Twin Peaks além da realidade: O White Lodge e o Black Lodge. Apesar de ambos não serem nos apresentados na maior parte da série, é possível sentir sua presença vibrante através da construção da imagem ao longo dos episódios.

Espíritos que personificam a loucura e a maldade do homem percorrem as florestas de Twin Peaks. O “mal” que se esconde nos bosques, junto com uma série de personagens enigmáticos, tais quais o Gigante, o Homem de Outro Lugar, o garoto mágico e a sua avó, Bob e Mike, a Senhora do Tronco, o Homem de um Braço Só (Gerard), fazem com que a investigação e todos os mistérios que cercam Twin Peaks transpassem constantemente entre os limiares da lógica e do espírito, de forma que nos sentimos frequentemente instigados a deduzir que as respostas se encontram todas no universo da mente.

E o profundo e misterioso universo da mente, dos sonhos e da consciência é o que David Lynch melhor sabe explorar na sua obra artística, e o faz com maestria em Twin Peaks, uma série que mostra-se fenomenal não apenas pela sua abrangência de fãs apaixonados, mas também pelo domínio artístico de seu criador.

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