por Maurício Owada

Twin Peaks foi uma das séries que revolucionou a televisão americana no início dos anos 90, criado por David Lynch ao lado do roteirista Mark Frost, as duas temporadas marcaram o público com uma trama que remetia a telenovelas, ao mesmo tempo que elementos básicos da filmografia de Lynch construíam um universo específico beirando ao gótico e sobrenatural. Referências de diversas partes, Twin Peaks não terminou como Lynch queria, o canal ABC não gostava do formato da série, que remetia a temas polêmicos como sexo e drogas.

Logo após a vitória em Cannes por Coração Selvagem, o prelúdio da série não caiu no gosto do público exigente e nem dos fãs, que estranharam o clima mais sombrio do que o comum, pra quem estava acostumado com os alívios cômicos de humor nonsense. A questão é que Lynch mostra como seria Twin Peaks, se sua abordagem tivesse tido mais liberdade na televisão. Aqui, elementos visuais como nudez e sexo não são censurados e com isso, mergulhamos na vida depravada e decadente de Laura Palmer (Sheryl Lee, numa incrível atuação), enquanto é atormentada pela presença de Bob (Frank Garcia), uma aparição fantasmagórica que perturba sua mente, sua visão, sua vida e seu sono.

Com o subtítulo original “Fire Walk With Me”, toda a estória retoma o mistério do Black Lodge, o famoso quarto vermelho aonde se criou todo o mistério surreal acerca do assassinato que tirou o sono de telespectadores em 1990 e 1991. A presença do anão de terno vermelho que assombra pela fala e dança esquisita, trás a tona todos os momentos oníricos e sombrios da série, aqui colocado de forma ainda mais estranha e misteriosa, Lynch não mede o surrealismo empregado nas últimas horas de vida de Laura Palmer. Pra quem assistiu a série, intriga ainda mais devido a acontecimentos que quebram a cronologia, personagens que só apareceriam no final da série assombram a mente da jovem no prelúdio.

Pra quem não assistiu a série, a história pode não fazer sentido, mas os momentos únicos do cineasta em momentos de horror e suspense deixam aquela marca do seu autor, que apenas Lynch é capaz de deixar em uma sessão de um filme seu. Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer segue em sua filmografia de forma quase invisível, vive sob a sombra de seu maior sucesso na carreira e é pouco degustado e ainda que tenha seus defeitos, ele marca pela densidade e por algumas participações célebres que são breves, como Chris Isaak, David Bowie e Kiefer Sutherland. No fim, o filme não é feito para dar respostas, é ingenuidade pensar isso de um cineasta que prefere provocar o público com histórias abstratas – Twin Peaks não foi feito para ter um desfecho definitivo.

 

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