por Beatriz Bidinotti

Um filme de estrada e de transbordamento. Sailor Ripley (Nicholas Cage) e Lula (Laura Dern) são um casal absurdamente apaixonado que não obtêm aprovação de Mariette, mãe de Lula, interpretada por Diane Ladd – indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação neste filme. Mariette então consegue que Sailor seja preso e assim o mantém quase dois anos distante de sua filha, mas ao sair da prisão, o casal se reencontra e a mãe da jovem contrata um assassino para matá-lo.

Sailor tem seu visual todo inspirado em Elvis Presley, desde o sotaque muito bem realizado até seu figurino e seu jeito de ‘galã’. Mesmo sendo um homem forte que não mede forças para estar com seu amor, matando e roubando; quando está com Lula, Sailor mostra-se sentimental e amoroso, principalmente no momento em que a presenteia com um colar de doces.

Lula também carrega ambiguidade, já que suas ações rebeldes e sensuais com Sailor contrastam com seu pensar infantilizado, sempre em devaneios quanto ao O Mágico de Oz. Se não fosse por sua dualidade, o teor da personagem não traria o impacto necessário para formar casal com Cage, o homem mais velho que aparentemente a libertou dos cuidados restritivos da mãe.

Diane Ladd (que é realmente mãe de Laura Dern) constrói sua personagem com um fervor tão intenso que dá marcas cômicas à Marietta. Em sua primeira aparição, nota-se a sua principal marca: a loucura. Após não conseguir seduzir o namorado da filha, manda que o matem. Provavelmente a personagem mais bem construída, principalmente por ser coadjuvante, as cenas de Ladd são as que amarram os fios que o casal protagonista não explica – mesmo que no final não haja uma conclusão quanto ao incêndio.A aparição singela de Bobby Peru (Willem Dafoe) é o confronto que faltava em tal parte do longa, quando tudo está a dar certo. Sua atuação caricata e quase irreconhecível forma um personagem cuja participação é hipnotizante.

Lynch propõe em Coração Selvagem um filme bruto em todos os sentidos, como o amor do casal, a loucura da mãe, as transições secas e pertinentes de música e imagem ea violência no longa.

Nunca sutil, a iluminação, que usa muito visualmente do fogo, aborda no sexo o que poderia ser a visão de Lula de como este é, devido as cores fundidas nos corpos deles e na fala dela: ‘’ Às vezes quando fazemos amor, você me leva para algum lugar além do arco-íris.’’. A trilha sonora instiga e provoca, localizando o espectador não só nos acontecimentos gerados pela fuga do casal, mas nas referências que tornam o filme mais do que uma simples história de amor.

O fogo carrega o filme no sentido literal e no metafórico, como a intensidade de todos e tudo, desde os cigarros sempre fumados ao incêndio. Ainda nas referências, o filme diretamente faz menção a O Mágico do Oz, comparando os personagens com a Bruxa Má do Oeste e à Dorothy, fazendo analogias com os sapatinhos vermelhos, a estrada de tijolos amarelos e a bola de cristal. No entanto, são os delírios com a Bruxa Má do Oeste e com a Bruxa Boa que fazem o espectador lembrar-se que o filme é de David Lynch, e o surrealismo não pode faltar, mesmo em um filme romântico.

Em conclusão, os corações mostrados não são só selvagens, são flamejantes. O final do filme – além da bela interpretação de Cage ao cantar Love Me Tender – dá ao público aquilo que ele quer: acima de todas as dificuldades, o amor deles foi maior, simplesmente porque é este amor que os guia e os torna quem são. Como dito a Sailor: ‘’Se tem um coração selvagem de verdade, vai lutar por seus sonhos.‘’

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