por Maurício Owada

Que a guerra civil que toma as nações africanas, isso tudo mundo sabe. São constantes as notícias e as produções cinematográficas que já relataram a dor e o sofrimento causados por golpes militares, saques e massacres por rebeldes e soldados, estupros e a inserção de crianças em tropas militares e frentes opositoras.

Baseado no livro do nigeriano Uzodinma Iweala, a trama se passa num país indefinido, aonde o garoto Agu (interpretado pelo brilhante iniciante Abraham Attah), cuja família vive em um vilarejo que é dizimado pelas tropas do governo, com seu pai e seu irmão mais velho sendo chacinados, enquanto sua mãe fugiu para a capital com os irmãos mais pequenos. Ao escapar para a floresta, o garoto se junta a milícia comandada por um comandante (Idris Elba), que inspira temor e admiração em sua tropa, que invade vilarejos e ruma para conquistar a capital.

Visualmente arrebatador, o trabalho de direção – e também fotografia – por Cary Joji Fukunaga, que se consagrou na primeira temporada de True Detective, é de um realismo absurdo, acentuado por planos sequência que demonstram a crueza do conflito armado que vitima diversos inocentes e o cineasta acerta em não amenizar a violência crua, dando-nos o impacto suficiente daquela realidade, mas também acerta em retratar um lado pacífico de uma África, que só é perturbado por sede de poder e intolerância política e étnica.

Com um apelo mais humanista e menos exageradamente emocional, não há espaço para atores hollywoodianos, a não ser Idris Elba, ator inglês negro de descendência serra-leonina e ganês, cujo sotaque lhe soa natural, apesar do apelo de sua imagem ser um foco também de atrair uma notoriedade, mas o personagem apenas ganha uma áurea de admiração e repulsa, enquanto o conflito é gerado na cabeça do pequeno Agu, garoto comum que foi jogado numa guerra sem causa, aonde não se encontra nenhuma busca de redenção, o que justifica o prêmio Marcello Mastroianni para o garoto, que deixa de ser um após a primeira ceifada contra uma vida humana.

Beasts of No Nation se consagra por uma abordagem menos sensacionalista dos conflitos africanos e apesar do belíssimo visual, Fukunaga se esforça pro filme cair no lugar comum, não vilaniza nem mesmo os assassinos, não caricaturiza a situação na África e não apela para um emocionalismo barato. O longa se diferencia pelo seu formato de distribuição, via Netflix, que começa a desbancar aos poucos um mercado que não está pronto pra mudar tão radicalmente, já que sua abordagem, apesar de honesta, não seja nenhuma novidade e o tema tenha sido incansavelmente mostrado em outros filmes, mas é uma obra ainda essencial, já que ainda não é um tipo de realidade que está longe de ser abolida.

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