por Beatriz Bidinotti

Uma estória de cores, cujas nuances caracterizam os segredos e verdades escondidas de cada personagem. Jeffrey Beaumont, interpretado por Kyle MacLachlan, acaba de deixar a faculdade para cuidar de seu pai que teve um infarto – e assim não pode cuidar de sua loja de ferramentas. Jeff, ao caminhar de volta a sua casa após visitar o pai no hospital, encontra uma orelha humana em um terreno abandonado. O achado o faz procurar o Detetive Williams (George Dickerson) que não o ajuda a cessar sua curiosidade no caso, massua jovem filha Sandy (Laura Dern) se junta a Jeff na investigação. O casal passa a seguir e buscar por pistas de Dorothy Vallens (Isabella Rossellini), possível suspeita cujos segredos englobam muito mais que eles imaginavam.

Jeff não segue o papel de ‘bom moço’ que quase se acredita que ele seja. Sandy diz a ele ‘’Não sei se você é um detetive ou um pervertido’’. De fato ele tem um pouco dos dois, sendo melhor definido como curioso. No entanto, sua curiosidade não cessa até não só descobrir sobre o homicídio, mas também resolvê-lo. Conforme vai descobrindo mais informações sobre a vida de Dorothy, inclusive informações muito pessoais, seu profissionalismo passa de ‘questionável‘ a ‘inexistente’ quando inicia uma relação com a cantora e ao mesmo tempo com Sandy.

Dorothy, principalmente ao cantar Blue Velvet, transfere todos seus problemas e ameaças em simples olhares e gestos. Uma atuação forte e suave nas mudanças de estado, seja como vítima, sedutora ou misteriosa. Seu lado maternal, além de ser abusado por Frank, psicologicamente e sexualmente, é presente na construção da personagem e mostrado conforme o longa se desenvolve. Uma mãe que faz de tudo para recuperar o filho, tão desesperada que se envolve com um estranho que a estava observando escondido em sua casa. Sua cortina é mostrada nas cenas em que ela tenta deixar o veludo azul de lado e seguir, relação possível de se fazer devido a subjetividade do assunto tratado no filme de forma tão marcante.

Sandy representa a pureza e ingenuidade que aos poucos é perdida com a  companhia de Jeff. Ela deixa o namorado de lado, mente para o pai e se arrisca para tentar descobrir sobre o homicídio. Tal devoção da garota é exibida de forma que é possível notar o amadurecimento da personagem conforme as pistas os levam a situações mais perigosas e o relacionamento deles vai tomando forma.

As duas são mostradas de forma bem contrastante, desde as características físicas a loira e a morena à própria personalidade: a estudante doce e curiosa contra a cantora sensual e deprimida. Todos os personagens são definidos visualmente por meio das cores: Jeff usa sempre preto, Gordon é o homem de amarelo, Sandy de rosa e Dorothy em seu apartamento é mostrada com a cor vermelho, mas é obrigada a digerir o azul de Frank. (O personagem de Gordon lembra o opressor do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o soldado amarelo que usa mal seu poder político contra a sociedade.)

O personagem de Frank Booth (Dennis Hopper) é totalmente desnorteado. Suas regras sexuais com Dorothy, em que ela é obrigada a aceitar, mas também acaba por segui-las, são um tanto quanto peculiares. A fixação pela figura materna o torna um homem desestruturado e obsessivo. Tal característica não é mostrada a fundo o seu ‘ porquê’, deixando em aberto para o espectador refletir em possíveis traumas na infância.

Lynch brinca com a mente do telespectador usando de suspense na composição. As transições de cena são silenciosas e sorrateiras, a trilha sonora usa da canção Blue Velvet, que originou a história e diversas vezes é cantada e tocada, cada vez em diferentes perspectivas sobre a história. Além da música de Angelo Badalamenti, a música In Dreams de Roy Orbison é a principal marca surrealista, presente nas cenas com Frank. A iluminação é leve, e quando não é, segue os tons de azul.
Veludo Azul é uma estória sobre cores e disfarces. Mais precisamente: sublimações, como diria Freud, um modo de defesa que consiste em transferir aquilo que a sociedade condena em forma aceitável, como ao cantar uma música que retrata a situação submissa – no caso de Dorothy. Todos os personagens vão mostrando que sua superfície, de beleza e equilíbrio, é apenas uma camada da cebola. O ser humano é mostrado de forma verdadeira, com segredos, mistérios, delírios e problemas. Um filme psicanalítico sobre uma realidade paralela à dos sonhos, uma visão seca e desconfortável da humanidade, fazendo o espectador se chocar com o que vê, não por se tratar de delírios e crimes, mas porque é posto a pensar que sua própria vida pode esconder situações como as apresentadas pelo diretor.

Anúncios