por Maurício Owada

Clássico da literatura de ficção-científica, Duna, do autor Frank Herbert, advém das grandes space operas popularizadas pela trilogia da Fundação, de Isaac Asimov, trazendo todo um cenário de culturas, influenciadas pela política, sociedade e economia do seu próprio universo, geralmente um futuro quando a raça humana atingiu um domínio tecnológico e científico, levando sua civilização para outros planetas e os colonizando de forma plena. Assim como a trilogia da Fundação, Duna se passa em um regime monárquico que remete muito ao feudalismo, o que sempre predomina o discurso nessas obras de ficção-científica da insistência do homem a regimes e pensamentos retrógrados num futuro avançado.

Duna é um obra de universo rico, muito relacionado a cultura islâmica e a Idade Média. Em alta na época, conhecido pela criatividade, uma bagagem artística forte em seus filmes anteriores, David Lynch foi escolhido para dirigir a adaptação do épico espacial para as grandes telas (inicialmente, Ridley Scott era o escolhido para dirigir, além de que Jodorowsky já tentara levar uma adaptação ousada – retratado no documentário “Jodorowsky’s Dune”). Mas assim como Jodorowsky, Lynch também tinha sua visão autoral diante de um livro cheio de citações/reflexões filosóficas, religiosas e psicológicas, mas assim como o cineasta chileno, o corte sofreu com a mão pesada dos estúdios, tendo a montagem reduzida e a interferência nas escolhas artísticas.

A história se passa diante de uma conspiração política do imperador Shaddam IV, da Casa Corrino (lembrando o contexto feudal num império intergaláctico) para derrubar a Casa Atreides, que possui responsabilidade sobre o planeta Arrakis (cujo segundo nome é o título da obra) e único lugar de onde é extraída uma especiaria que prolonga a vida do usuário e da presciência de outros e que é de interesse de diversos setores dessa sociedade. Vendo a Casa Atreides como um perigo a dinastia Corrino, manipulam a Casa Harkonnen, rivais centenários dos Atreides, para destruir a família e tomar Arrakis. Sobrevivendo ao ataque, Paul Atreides (Kyle MacLachlan) decide vingar a família, reunindo os conhecimentos táticos e marciais dos grandes generais da sua casa, com técnicas de presciência aprendidas por sua mãe, integrante de uma misteriosa irmandade feminina conhecida como Bene Gesserit, para liderar o subestimado povo Fremen, nativos de Arrakis, contra o Imperador.

De um visual estonteante, a direção de arte grandiosa trás todo o teor épico da obra e a fotografia que hora ou outra, remete ao clássico “Lawrence da Arábia”, de David Lean, que possui seus paralelos do estrangeiro que reúne um povo fragmentado e subestimado, liderando sua civilização a outro passo. As referências de Frank Herbert só não se tornam mais bem desenvolvidas devido ao roteiro atropelado (o que pode ser explicado pela mutilação feita pelo estúdio), o que torna neste num dos filmes mais defeituosos da filmografia de David Lynch na narrativa. E outro grande problema da mutilação do filme é o tempo dos atores, que além do tempo mal dado a eles (Max von Sydow aparece e sai de cena, como se não tivesse importância na estória), tanto quanto a falta de um desenvolvimento melhor, tendo personagens que aparecem e saem de cena rapidamente, assim como voltam de forma repentina, como Patrick Stewart, José Ferrer e Brad Dourif.

Mas nem por isso, não deixa de ter espaço trabalhar com sequências oníricas de caráter proféticos e reveladores para a trama, demonstrando uma busca de trazer a essência quase mística de uma obra de ficção-científica, um teor que geralmente era ignorado em prol de uma abordagem mais científica de seus autores. Se na estrutura narrativa, ela é desmoronada pelos propósitos comerciais, em sua imagética, há a luta de transcender diversos temas que Lynch contextualiza num cenário com elementos de cristianismo e islamismo, que assim como os livros da Fundação, contextualiza o futuro de uma civilização humana avançada em uma política retrógrada, com elementos conhecidos nos livros de história.

Infelizmente, assim como Duna de Alejandro Jodorowsky sofreu com a descrença dos grandes produtores e não chegou a ver a luz dos projetores, o Duna de David Lynch é massacrado, sua mensagem é desvencilhada no espaço, uma obra solta dentro da filmografia do cineasta que tinha pra ser o grande épico que marcaria sua carreira e a história do cinema. E ainda hoje, Hollywood demonstra não estar apta a dar luz plena a uma obra grandiosa e poderosa, que vá além de seu cenários imensos e narrativas extensas, preferindo ainda, apenas os filmes de apelo comercial.

 

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