por Tarcísio Araújo

Conhecido por explorar universos surreais em narrativas que fogem do cinema clássico hollywoodiano, David Lynch emociona com “O Homem Elefante”. Baseado nas memórias do Dr. Frederick Treves, o longa conta a história real de John Merrick, um homem que sofre de uma séria deformação chamada de neurofibromatose múltipla, e que é exibido como atração nos shows de horrores (em alta no fim do século dezenove) da Inglaterra durante a Era Vitoriana. Um dia, ele é salvo pelo Dr. Treves que o leva para morar no hospital onde trabalha.

Ainda que “O Homem Elefante” siga uma linearidade narrativa, logo na primeira sequência podemos perceber uma pegada mais experimental ao sermos apresentados ao nascimento de John e à morte de sua mãe. Ela é atacada por um elefante, porém na forma visual em que a cena é concebida, é como se o elefante (no caso a elefanta) fosse a verdadeira mãe de John, e reivindicasse seu filho, justificando o apelido do protagonista de “homem elefante”, embora ele exista por conta da doença de John.

No decorrer do filme percebemos que John é um homem extremamente sensível, inteligente e um grande apreciador das artes. Ele foi apenas uma vítima do meio em que viveu, por conta de sua aparência, e juntamente com os maus-tratos que fizeram dele um homem com dificuldades de comunicação. Uma vez vivendo no hospital, as pessoas vão se mostrando mais abertas para conhecê-lo melhor e perceberem que por trás de seu rosto desfigurado, existe um ser humano como qualquer outro.

Isso serve de reflexão para pensarmos como o caminho das aparências acaba sendo o mais fácil para definirmos o caráter de uma pessoa ou até mesmo sobre o medo do desconhecido, que está na frase: “As pessoas se assustam com o que não entendem”, dita por John em uma cena. Aqui, a verdadeira “aberração” é o ser humano incapaz de ter compaixão e sensibilidade com o próximo.

Trago essa reflexão até para quem não conhece muito os filmes de Lynch (principalmente os que fogem da narrativa mais comum) e que podem sentir uma certa rejeição no início. Se abrir para algo que possa causar estranheza no início, pode trazer surpresas agradáveis.

Tecnicamente o filme traz elementos do expressionismo alemão (marcante pelo uso da iluminação) que às vezes é maior durante o dia, e menor à noite. Isso possibilita a marcação das sombras em algumas cenas que estão em contexto com a situação de John, na época em ele era explorado nas feiras. Mesmo vivendo no hospital, é possível notar que em determinadas cenas, John fica na sombra e o Dr. Treves em pontos com mais iluminação. Seu próprio quarto apresenta formas e linhas disformes e uma janela bem pequena que possibilita pouca entrada de luz.

“O Homem Elefante” marca o sucesso de David Lynch no cinema mainstream, além de ter rendido oito indicações ao Oscar, incluindo melhor ator, direção e filme. Vale como curiosidade dizer que graças ao filme, foi criada a categoria de melhor maquiagem na premiação, que até então não existia.

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