por Maurício Owada

Artista de múltiplos talentos, foi no cinema que David Lynch, nascido em Missoula, no Estado de Montana, descendente de finlandeses por parte de mãe, se destacou no meio artístico, principalmente na sétima arte – o cinema. Sua formação artística que influencia muito no seu trabalho foi diferente de muitos cineastas, que estudou artes plásticas na Academia de Belas Artes da Pensilvânia. Muito ligado na arte surreal, Lynch demonstrou seu primeiro talento para o audiovisual, quando num concurso de artes plásticas, decidiu inovar ao dar vida a uma pintura, deixando-o com movimento e inserindo sons, em sua maioria ruídos repetitivos – algo que se tornaria característico em seu cinema: o design de som – , o que viria a ser conhecido como Six Men Getting Sick, de 1966. Com o dinheiro do prêmio que ganhou pela sua criatividade, comprou logo uma câmera e fizera mais três curtas, que denotaria bastante o seu caráter experimental: The Alphabet (inspirado num pesadelo da sobrinha de sua primeira esposa), The Grandmother e The Amputee.

Enquanto lançava seus curtas, em 1971, iniciou a produção que demoraria cinco anos para ficar pronta, de seu primeiro longa-metragem e lhe custaria não só o tempo, como até o próprio casamento (de onde surgira sua primeira filha, Jennifer Lynch, diretora de Encaixotando Helena). Lançando a obra em 1977, não teve muita repercussão e devido ao caráter extremamente surreal e experimental, foi um fracasso, mas chamou a atenção de diretores como Stanley Kubrick, que utilizou o filme como referência para o clima de O Iluminado, assim como Mel Brooks, que produzia a adaptação da peça “O Homem Elefante”, que assistira com sua esposa Anne Bancroft e procurava um diretor em potencial. Exigindo também a função de roteirista, Lynch trabalhou em cima da literatura médica, sobre o caso real de um homem chamado John Merrick, baseado no livro do anatomista Sir Frederick Treves, que era interpretado por Anthony Hopkins, com John Hurt e Anne Bancroft no elenco – resultou em 8 indicações ao Oscar.

Com os seus dois primeiros trabalhos vistos também por George Lucas, o cineasta o convidou a dirigir O Retorno de Jedi, mas Lynch preferiu criar um universo próprio em cima da complexa obra de Frank Herbert, Duna, em 1984. A interferência do estúdio e a retalhação da obra chateou David Lynch, o que fez com que jamais quisesse a voltar a trabalhar em um filme de grande orçamento. O cineasta só voltaria a trabalhar em seu estilo e universo fílmico com o aclamado Veludo Azul, o que o levou a uma segunda indicação ao Oscar, estrelado por Kyle MacLachlan (em sua segunda parceria depois de Duna), Laura Dern (o que viria a ser sua musa em seus filmes) e Isabella Rossellini, com quem o diretor mantinha um caso na época.

Em 1990, David Lynch cria junto com o produtor Mark Frost, a série televisiva Twin Peaks, sobre o assassinato de uma jovem colegial numa cidade fictícia no meio das montanhas, que desperta diversos mistérios locais, protagonizado pelo ator Kyle MacLachlan como o Agente Cooper do FBI, que investiga o caso. Tendo duas temporadas, o cineasta mais uma vez sofreu com a interferência em sua segunda temporada da ABC, o canal que exibia a série, mesmo assim, a série foi um fenômeno de público e marcou a história da TV. Ainda no mesmo ano, ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo filme Coração Selvagem, marcando o auge de reconhecimento de sua carreira.

Os anos 90 ficariam marcados pelo filme que antecede os acontecimentos em sua famosa série, Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, a volta de Lynch para as tramas confusas em Estrada Perdida e o seu filme menos característico em Uma História Real, que numa ironia com seu título em inglês, “The Straight Story”, segue a trama linear, porém tocante de Alvin Straight.

Com o sucesso passado de Twin Peaks, recomendam uma nova série a David Lynch, que fez seu episódio piloto em 1999, mas foi reprovado pela ABC, mas o Canal Studio lhe ofereceu um dinheiro para terminar aquele que seria outro trabalho reconhecido de sua carreira – Cidade dos Sonhos. Mas devido ao piloto ter sido cancelado, todos os figurinos e objetos do set foram destruídos, o que levou Lynch a revisitar a obra na sala de edição – o resultado foi uma única indicação do filme ao Oscar de melhor diretor e o prêmio na mesma categoria em Cannes, dividido com Joel Coen, por O Homem Que Não Estava Lá, em 2002. Em 2006, Lynch lança seu filme mais radical, gravado em vídeo, Império dos Sonhos dividiu a crítica e o público, acabou levando o Future Film Festival Digital Award no Festival de Veneza. Apesar de tanto tempo sem lançar um longa metragem, Lynch trabalha com diversos materiais para a internet, além de ser músico e ainda, artista plástico, jamais manteve-se parado.

David Lynch é daqueles artistas de diversas ideias e vários talentos, seu cabelo de traço curvo é como a jaqueta de cobra de Nicolas Cage em Coração Selvagem, representa sua individualidade, sua personalidade singular. E não é para menos, seus filmes provocam o público a todo momento, cada filme seu é como um quadro, onde cada um trás uma sensação diferente ao público, mesmo que isso os atordoe ou perturbe. São artistas como ele que ainda mantém o cinema como uma arte que desperta reflexões, questionamentos e sentimentos – o cinema ainda como uma arte viva.

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