por Rodrigo Italiani

Em seu sétimo longa metragem, Paul Thomas Anderson consegue trazer para as telas com todo o vigor e complexidade habituais de seus trabalhos, uma obra de igual sofisticação. Vício Inerente, o romance de 2009 do recluso Thomas Pynchon. O filme consegue traduzir maravilhosamente bem a digressão narrativa do romance, ora provando-se frustrante ao espectador,  ora o deleitando com o bom humor de uma trama que não poderia ser mais genuinamente dos anos setenta.

No longa, acompanhamos as desventuras de Larry “Doc” Sportello, um detetive particular que apenas ocasionalmente abandona seu estado de transe para observar o fim de uma era e em eventuais ocasiões investigar um dos três casos com o qual se envolveu (que mais parecem trinta). O filme também é o primeiro a fazer sentir a ausência de Philip Seymour Hoffman, que tinha passe VIP no universo de Paul Thomas Anderson.

Não por acidente, a história se passa nos anos setenta, pois marca o fim de uma era de paz e amor e abre alas para a paranóia que toma o coração de Los Angeles. O Tema é vital e se faz presente na estrutura base da história, uma vez que o ponto de vista que seguimos é o de Doc Sportello, que precisa em determinados momentos anotar em seu próprio bloco de notas se está alucinando ou não para manter controle da realidade.

Assim, não é gratuito (muito menos por descuido) que alguns segmentos mudam de forma brusca, que em sua primeira impressão podem causar o efeito de um erro de continuidade. A resposta, porém, mora na própria minuciosidade do diretor, que já a provou repetidamente e obviamente não permitiria alguns desses erros. Como por exemplo com a narradora, Sortilege, quem acreditamos ter o verdadeiro ponto de vista da história, afinal é quem narra a história desde o início. Podemos vê-la diversas vezes com Doc na trama, mas em duas cenas peculiares, onde ela viaja com o amigo no  carro, é possível vê-la claramente conversando com Doc, para em uma rápida mudança de planos desaparecer sem nenhuma explicação ou insinuação se a mesma deixou o carro ou a mente de Doc. Em nenhum momento outros personagens a mencionam a não ser na última cena. São com artifícios assim que Anderson constrói a paranóia que representa também na tela para seus espectadores.Não é até que as três tramas comecem a se entrelaçar e conectar que você realmente descobre a sensação de paranóia. E vai ter que voltar a rever o filme uma, duas, três vezes, até finalmente entender que a trama não pode ser completamente desvendada. O diretor tira isso de você sem que possa ser notado. Foram pequenos detalhes cortados durante a adaptação do roteiro (como por exemplo o por quê do escritório de Doc ser uma sala em uma clínica médica) que permitiram a história chegar a tal impenetrabilidade. Isso se mostrou, de maneira perigosa, frustrante aos espectadores, principalmente pela trama não possuir o típico roteiro disposto em três atos e nem mesmo um arco emocional tradicional o suficiente para induzir o público. Mas é na urgência de seus acontecimentos ou na imediatez de suas revelações que mora o humor e todo o encanto do Longa. O filme é, senão uma representação da filosofia do próprio protagonista, um eco do estilo de vida que se extinguia com a chegada da nova década.

O filme se sobressai também no departamento musical, como já era de se esperar do diretor, desde Embriagados de Amor, Anderson vem experimentando com suas trilhas sonoras, conduzindo o dito longa com quase completamente uma trilha experimental e aperfeiçoando-a com o magnífico Sangue Negro e o igualmente fantástico O Mestre. Em Vício Inerente, junto a Jonny Greenwood, ele nos traz uma trilha rebuscada, que não só faz uso das já típicas experimentações sonoras que Anderson comumente utilizava para exibir o estado psicológico de seus personagens, mas sim de uma trilha sonora selecionada a partir de canções da geração da qual se trata a história, a escolha é óbvia, dada a caracterização tão específica e detalhada que o filme tem artisticamente. Tudo em pró do clima pós anos sessenta que tão vigorosamente ele tenta (e com louvor, sucede) em conceber.

Mas assim mesmo Paul Thomas Anderson continua expressando sua identidade fortemente através das trilhas sonoras de seu filme. Como em uma das primeiras cenas, onde Doc, parado em meio a uma das estreitas ruas de um bairro a beira-mar, observa à distância sua ex partir e uma bateria palpitante irrompe, é uma trilha inquieta e apreensiva e a letra  “Hey you! You’re losing, you’re losing, you’re losing, you’re losing your vitamin C!” tomam novo significado no contexto. Desde o cômico resultado da calma “Burning Bridges” tocada enquanto Doc é agredido e pisoteado por seu rival, até quando ao ritmo da melancólica “Journey thru the past” vislumbramos uma doce memória do passado de Doc e Shasta, sua ex, correndo pela chuva, só para em seguida termos a cena sobreposta por um Doc solitário, caminhando pela mesma paisagem, agora modificada e um segundo depois passa de extra-diegética para diegética e de repente descobrimos que Doc ouvia a música no rádio em seu carro.

Paul Thomas Anderson cria, com seu sétimo filme, sua carta pessoal de amor aos anos setenta californianos, amante declarado de sua terra natal, não houveram esforços poupados da reconstrução do clima e visual perfeitos. É um filme de camadas, e entre cada uma delas a quantidade necessária de maconha, paranóia, nazistas, hippies e dentistas. Declarado por Anderson como o filme mais “direto” que já fez, sem tempo para nenhum artifício cinematográfico sofisticado, “Vício Inerente” é um filme intricado, até mesmo labiríntico, definido não por uma trama de tirar o fôlego, mas na premência de seus momentos singelos e cômicos.

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