por Beatriz Bidinotti

1950. Joaquin Phoenix interpreta Freddie Quell, um homem depravado e torto (tanto no sentido figurado quanto literal), que volta da Segunda Guerra Mundial para os Estados Unidos na tentativa de obter uma vida normal. Ele, insatisfeito e perdido na vida, busca superar o ‘ amor de sua vida’, afundando-se no sexo, em empregos que não dão certo devido a sua violência; e, nas bebidas que prepara com thinner e outras substâncias tóxicas. Pelo acaso (ou não), Freddie conhece Lancaster Dodd, interpretado por Philip Seymour Hoffman, um homem incrivelmente culto e de notável retórica que fundou o culto A Causa, sendo ele ‘o mestre’.Ele se mostra para Freddie como o mestre que deve ser seguido, “munido de técnicas semelhantes a hipnose que leva o paciente em busca de suas vidas passadas para cura de dores, problemas e até mesmo doenças; principalmente por meio da repetição, os questionários acabam por aproximá-los cada vez mais, como pai e filho – mas, eles não obtêm benefícios nesta relação.

Freddie é a personificação da falta de controle dos instintos selvagens do homem, sendo até mesmo comparado no filme mais de uma vez com um animal. Na verdade, ao observá-lo agindo, o espectador chega a se perguntar se o personagem sequer conhece o termo ‘auto-controle’; controle buscado por ele no culto A Causa. A atuação de Phoenix quanto a naturalidade com violência, alcoolismo e sexo desenfreados dosado com a ingenuidade quase infantil é uma das melhores atrações no filme.

O mestre vai se mostrando cada vez mais fraco na tentativa de sucesso com seu culto, na união do fanático corrompido pelo falso poder, que busca respeito com o  homem conhecedor de tudo e carismático (com destaque à cena em que ele canta). Esta, aliás, uma das melhores cenas entre Seymour Hoffman e Phoenix, mostrando a visão de cada um sobre a sociedade.

O filme não coloca nenhum personagem imune de defeitos e isto traz peso à forma como a história é levada, pois ‘o mestre’ amarra seus seguidores prometendo uma grande reviravolta, uma ascensão que não chega. O filme é lento, de forma que assim é possível analisar a profundidade de personagens tão redondos como Lancaster Dodd e Freddie Quell.Igualmente bem interpretada, a personagem de Amy Adams, Peggy Dodd (esposa de Lancaster), mostra-se desde a mãe protetora, de início uma mulher inocente a uma esposa ativa nos cultos e administração d’A Causa.

Já a filha de Lancaster, Elizabeth (Ambyr Childers) e seu marido, Clark (Rami Malek), faltam de maior aprofundamento em suas ações antiéticas discretas, não tendo estas conclusão posteriormente no longa.Também na lista de personagens pouco aproveitados temos o filho de Lancaster, Val (Jesse Plemons), que não aprecia, respeita ou envolve-se com o culto do pai.

A trilha sonora se mostra desconcertante. Ora transpõe sutileza a momentos que pedem mais ação sonora, ora o som tem a função de realmente incomodar quem está assistindo, repetidamente sincronizada, tornando perfeita a sua junção com a trama. Com uma iluminação simples e natural, a fotografia torna-se bela nas imagens de contraste que realçam os rostos e expressões. Paul Thomas Anderson privilegia os personagens e narrativa muito bem desenvolvidos.

Concluindo, O Mestre trata não só de como os Estados Unidos da América estavam perdidos após a Segunda Guerra Mundial, como seres humanos imperfeitos e não tão fabulosos como a o american way of life tentava mostrar. Depois da guerra, os americanos não tinham mais a nação estadunidense para seguir em batalha e aí que os cultos obtiveram força. Este filme trata do que o ser humano pode ser tornar na busca desenfreada de um mestre. Lancaster diz a Freddie a maior questão: “Se descobrir um modo de viver sem servir a um mestre, qualquer mestre, então nos conte como conseguiu. Você seria a primeira pessoa na história do mundo”.

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