por Melissa Vassali

Adaptado do romance Oil!, de Upton Sinclair, Sangue Negro é o quinto longa-metragem do diretor Paul Thomas Anderson. O filme se passa na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview, admiravelmente interpretado por Daniel Day-Lewis, é um explorador de minério que acidentalmente encontra petróleo. A partir de então acompanhamos a ambiciosa saga do personagem em busca de dinheiro e poder.

Sabendo da existência de novas terras para exploração de petróleo em Little Boston, informação vendida a Daniel por um morador local, ele decide partir com seu filho, H.W., que ele adotou ainda bebê. É aqui que se concentra a maior parte da história. Eles não demoram a encontrar o poço que procuravam, mas além de riqueza sua descoberta lhes trará uma série de conflitos.

Uma leitura possível sobre o filme é que Daniel é a personificação do capitalismo. Busca apenas o lucro em benefício próprio, com a falsa promessa de levar prosperidade para a pequena comunidade onde se instalou. Assim, cada vez mais o personagem despreza e se afasta de tudo o que é humano. Diante de um acidente com um dos poços ele não demonstra preocupação pelas possíveis vítimas – o que incluía seu filho. Daniel apenas contempla o fogo, pois ele sabe que quanto maior a chama, mais petróleo há sob a terra. Após esse acidente H.W. fica surdo e Daniel perde o que parecia ser a sua única forma de contato com a humanidade. Não haverá então mais limites nem escrúpulos para Plainview chegar onde deseja.

Não é a toa que Daniel é iluminado durante a maior parte do filme por uma contra-luz, tornando-se apenas uma sombra na tela. Não é à toa também que o ambiente subterrâneo, frio e seco, onde apenas a petróleo prospera, parece ser o ambiente natural de Daniel. O petróleo se torna o próprio sangue do personagem – e as cenas em que banhado por esse “sangue” ele experimenta um sentimento de plenitude único evidenciam isso.

Quando chega a Little Boston um suposto irmão de Daniel, temos a impressão de que esse quadro pode se reverter– diante da possibilidade de retomar seu contato com a humanidade através de um irmão de sangue, as cenas passam a ser mais iluminadas e Daniel se permite ter alguns pequenos momentos de prazer – como quando se banha ao mar, em clara oposição à terra seca –, mas é justamente ali, na água, que Daniel descobre a farsa do irmão, que não passava de alguém visando se aproveitar da fortuna dele. Daniel estaria mesmo fadado a ser só e seco como a terra, e sem nenhum laço de sangue com alguém.

O diretor Paul Thomas Anderson recorre a outro pilar da sociedade norte-americana, a religião, para criar o opositor de Daniel, o pastor Eli Sunday (irmão do homem que vendeu a Daniel informações sobre os poços em Little Boston). E assim como há um trocadilho no nome de Plainview (“visão ampla”, que coloca Daniel como o homem da razão), o sobrenome de Eli nos remete ao dia santo cristão, o domingo, que é o dia de descanso, em contraste pela lógica de trabalho empregada por Daniel. O conflito entre os dois surge quando Daniel nega a Eli a chance de benzer o poço que fora inaugurado na cidade, e após o acidente o pastor prega que tal fato só aconteceu porque o poço não tinha a benção divina. Mas embora em conflito constante, a “religião” e o “capitalismo” não são diferentes em sua essência – os dois buscam poder e em determinados momentos do filme os personagens que os representam realizam discursos contrários à sua ideologia para conseguir o que almejam.

E é a ganância que norteia ambos que levará ao desfecho prometido pelo título em inglês. Haverá sangue. Mas estas são apenas as primeiras impressões de um filme tão profundo quanto os poços de exploração de petróleo escavados pelo seu protagonista. Para acessar as camadas que o compõem e enxergar todos os simbolismos empregados pelo diretor é necessário muito mais do que assisti-lo outras vezes. Precisamos, assim como o protagonista, tentar ter uma visão abrangente sobre o que nos é apresentado.

Anúncios