por Rogério Emílio

Os anos noventa se iniciam de forma conturbada e desafiadora, com a queda da poderosa União Soviética, os países do leste europeu ganham sua independência, nas paradas musicais o cantor Vanilla Ice se torna o primeiro rapper a alcançar o posto número um na Billboard e a rede de TV CNN transmite pela primeira vez os combates de uma guerra em tempo real, dando chance ao mundo de conhecer a força militar dos Estados Unidos e descobrir onde eles gastam seu dinheiro.

O cinema ainda como um dos principais mercados culturais continuava arrastando platéias com obras como Esqueceram de mim, O Exterminador do futuro 2 e Jurassic Park. Dentro desse contexto dominante nasce uma escola autodidata que colocou em cena uma geração de novos cineastas independentes, que conseguiram uma importante inovação fílmica abrindo concorrência com os grandes estúdios hollywoodianos e seus orçamentos milionários.

O diretor e roteirista Paul Thomas Anderson veio dessa escola, portando um elevado senso artístico começou fazendo muito com pouco, criou suas próprias características de linguagem e seus roteiros dramáticos e intrigantes chamaram a atenção do público adepto da sétima arte. Anderson sempre teve como referência o mestre Robert Altman, o que o influenciou bastante na criação de seus personagens.

Por falar em Altman, este pegou carona nessa onda noventista e depois de alguns anos longe das telas americanas retorna com o brilhante O Jogador pra logo depois lançar o fabuloso Short Cuts e dar continuidade em um estilo diferente de cinema criado nos anos setenta que continha uma narrativa sedutora e que ficou conhecida como multi-plot ou cinema mosaico. Nos filmes mosaicos existem diversos personagens principais, mas todos eles sucumbem a um único protagonista, a vida diária.

      Short Cuts – Cenas da Vida

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Robert Altman sempre preferiu mostrar como as pessoas se relacionam em um determinado grupo social ao invés de contar uma história no modo tradicional e Short Cuts se manteve fiel ao seu estilo. Adaptado de alguns contos de Raymond Carver o filme conta com uma gama de personagens malucos, engraçados e desagradáveis, porém consegue dialogar com o espectador de uma maneira tão próxima que nos sentimos familiarizados, como se já nos conhecêssemos. Um motorista alcoólatra namora uma garçonete, essa atropela o filho de um apresentador de telejornal, que tem como empregado um limpador de piscinas casado com uma mulher que presta serviços a uma rede de tele sexo e que são amigos de um casal de doidos. Do outro lado temos um pescador desempregado casado com uma animadora de festas infantil, esses irão jantar na casa de um médico que descobre ter sido traído pela sua mulher artista plástica, que é irmã de uma dona de casa casada com um policial mau caráter que adora trair sua esposa com uma mãe que não suporta mais seu marido piloto de avião. Ainda tem a cantora de jazz que não dá a mínima pra sua filha violoncelista obcecada pela morte.

É personagem que não acaba mais, todos se entregando ao cigarro e a bebida, fazendo dessas substâncias um calmante para controlar essa histeria que é o cotidiano pós moderno. Existe também um coadjuvante nessa loucura toda, um eletrodoméstico presente em quase todas as casas que ganha destaque nas cenas em que aparece, sempre propondo uma mobilidade familiar, a TV.

Toda essa gente vive em meio a um momento de epidemia de insetos, sem perceber que são a própria praga, vivendo em uma sociedade caótica e conformada. Convivendo com mentiras e traições, não se importando com valores humanos e sem nenhum respeito ao próximo, seja ele seu companheiro, seu filho ou até mesmo um cadáver boiando na beira do rio. Talvez por esses motivos brote aquele sentimento familiar com os personagens do filme, eles estão a nossa volta, são nossos amigos, parceiros e nossas amantes.

Magnólia

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Como disse o Eclesiastes que embaixo do sol não há nada novo, Paul Thomas Anderson realizou o seu mosaico inspirado em Short Cuts, fez um retrato melancólico da realidade e chamou sua obra de Magnólia, metaforizando nossas vidas com a fragilidade da flor que dá nome ao filme.

MAGNÓLIA é construído na mesma estrutura narrativa, deixando de lado as situações cômicas e se aprofundando em questões perturbadoras dentro de relações familiares. Traumas de infância, homossexualidade, incesto, abuso de drogas e enfermidades são alguns dos principais temas envolvidos no enredo recheado com simbolismos religiosos e referências bíblicas. Anderson conduz a história como um maestro, avançando e recuando nos dramas mais angustiantes do ser humano. Tom Cruise brilha como um marqueteiro machista e vulgar, que diante de um reencontro com seu pai à beira da morte, se revela um menino sensível e machucado. Diferente de Short Cuts, o policial retratado aqui é dedicado, esforçado e com um coração de ouro. Qualidades que superam seus fracassos profissionais.

O filme é rico em detalhes no roteiro que revelam o passado dos personagens, colocando um ponto de reflexão maniqueísta para entender as mágoas, as traições e os arrependimentos. Os segredos são revelados nos momentos finais, trazendo uma reviravolta onde os coitados se tornam merecedores. A TV também marca presença, como um meio manipulador, soberano e destruidor de personalidades. Dois outros personagens, um adulto e uma criança, fazem uma espécie de paralelo entre presente, passado e futuro mostrando as conseqüências de uma educação repressiva e os excessos controladores da mídia. Não é a toa que o popular apresentador Jimmy Gator resistindo a um câncer avançado e condenado psicologicamente, acerta por engano um tiro em seu televisor. Também como não é por acaso que sua filha tenha se tornado uma viciada em cocaína.

O bem e o mau, o certo e o errado, a vida e a morte são os valores apresentados nessa obra de arte simplesmente magnífica que produz um elo na vida dessas pessoas nos colocando pra lembrar-se da existência de uma força motriz poderosíssima chamada destino e outra chamada coincidência e que as duas juntas podem mudar o sentido e a natureza da vida. Também nos trás a mensagem de que os erros cometidos em favor do nosso ego devem ser evitados pro bem da nossa saúde. O filme não nos deixa respirar durante suas Três horas de projeção. É tensão do começo ao fim. E como não se emocionar no momento em que todos são unidos por uma canção que passa conforto e esperança as almas desesperadas?

Crash – No limite

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No mundo nada se cria tudo se copia e com as artes esse ditado é ainda mais utilizado, já que ela também serve pra influenciar e gerar idéias a novos artistas. Mas sempre há um jeito esperto de mudar a direção do tema.

Em 2004 Paul Haggis escreveu e dirigiu o premiado Crash retratando um lado preconceituoso e banal da sociedade americana. Combinando pessoas das mais variadas etnias ele faz um panorama em um determinado território, analisando o comportamento humano e a ideologia plantada em uma sociedade assustada onde o que prevalece é o individualismo.

Um promotor de justiça e sua mulher mimada têm seu carro roubado. É o ponto de partida para o desdobramento de uma história onde as vidas das pessoas colidem através do racismo e da insegurança. Abuso de autoridade, desrespeito e falta de ética moral é o que faz os personagens perderem o controle mental, culminando em trágicas conseqüências.

Os conflitos acontecem dentro de trinta e seis horas na cidade de Los Angeles onde o preconceito é unanimidade e vem de todas as formas, racial, cultural e social econômico. O conceito de semelhança e comunhão é banido da realidade. Na verdade é uma guerra civil desmoralizada e desumana em que a arma mortal é a ideologia.

Diante dos fatos abordados por Crash e sem esquecer-se do marcante caso real do taxista Rodney King, é posicionado uma questão primordial que vai contra o principal discurso que representa os Estados Unidos durante séculos de sua existência. Será mesmo a América um país livre? Ou isso não passa de uma falsa ilusão encenada pelos seus pais fundadores e adotada de maneira errônea por toda a nação?

Intervenção da natureza

Apesar dos três filmes apresentados acima possuírem um parecido formato de narrativa, mas levantar temas diferentes dentro de contextos diferentes, uma manifestação se faz fundamental em todos eles. Uma alteração geológica da terra que nos faz refletir e lembrar que somos apenas microorganismos dentro de um planeta inquieto que pode mudar o rumo das nossas ações e reações.

Em Short Cuts é após um terremoto balançar Los Angeles que tudo acaba bem ou mal. Alguns se reconciliam e outros acabam por se enterrar no desespero. Já em Crash muitos mudam suas atitudes e tentam praticar um ato de bondade pouco antes de a neve cair do céu. Porém o mais bizarro e divinamente profético acontece em Magnólia, simplesmente uma chuva de sapos invade o ambiente trazendo um momento de transição, afetando o comportamento dos miseráveis e dos incompreendidos. Uma clara alusão de Paul Thomas Anderson à segunda praga enviada por Deus sobre as maldades do antigo Egito como descrito no livro do Êxodo.

Fica a lição de que a maior liberdade que se pode ter é poder escolher e tomar nossas decisões, sempre lembrando que vivemos tumultuados e o quanto influenciamos a quem está a nossa volta, porém nunca é tarde pra se arrepender e agarrar uma segunda chance. A arte sendo uma representação da vida tem o poder de nos aperfeiçoar e o cinema como vertente se torna a maneira mais direta de mostrar, ensinar e transformar.

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