por Giovani Gasparetto

“Terror logístico”, “magistral”, “progressista”. São estes alguns dos adjetivos atribuídos a não mais tão recente Sense8, porém, acredito que o que a série nos trouxe de melhor foi aquele profundo sentimento de catarse coletiva como raça humana, de que não estamos sozinhos, mesmo vivendo em um mundo cada vez mais individualista e cínico, ainda temos a capacidade de nos conectar.

Criada e roteirizada por J. Michael Straczyinki e os irmãos Wachowski (Cloud Atlas, SpeedRacer), que dirigiram mais da metade dos episódios da série, demonstrando a grande tendência atual de grandes diretores do cinema também trabalharem na TV (Fincher, Scorsese, Lynch, Aronofsky). A serie conta a história de oito personagens: Nomi Mark (a magnifica Jamie Clayton), uma hacker ativista e blogger de São Francisco; Riley Blue (Tuppence Middleton), uma DJ de Londres; Sun Bak (Doona Bae) uma executiva em uma empresa em Seul; Will Gorski (Brian J. Smith) um policial de Chicago; Capheus “Van Damme” (Aml Ameen) um motorista de Matatu ; Kala Dandekar (Tina Desai) uma química em uma empresa farmacêutica em Mumbai; Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt) um ladrão de Berlin e Lito Rodriguez (Miguel Silvestre) um ator mexicano. Após todos terem uma visão da morte de Angelica Turing (Daryl Hannah) ficam mentalmente e emocionalmente ligados.

Lançada pela Netflix em seu revolucionário formato, todos os episódios estreiam de uma só vez (tudo começou com o popular e genial House of Cards), possibilita que a serie tenha uma narrativa minuciosamente calculada, sem forçar cliffhangers ou desenvolvimentos apressados, já que eles não estão presos a uma competição de audiência. Outra vantagem do formato é a grande liberdade temática e artística, Sense8 é uma serie altamente progressiva e liberal, já em seus primeiros minutos, mostra um casal lésbico transando, e naturalmente revela em um plano detalhe o brinquedo sexual usado na relação. E por que deveria ser diferente? Já que aquilo é uma bela expressão de amor, natural a todos os seres humanos, expressão que é uma das mais puras formas de conexão. Ou, posteriormente na temporada, a fantástica cena, quando já ligados, dois casais começam a se relacionar sexualmente, porém essa excitação contagia outros personagens do cluster, que resulta em uma fantástica sequência de orgia (que flerta com um voyeurismo e me lembra a famosa sequência do filme De Olhos Bem Fechados, do mestre Kubrick), embalada pela música Demons (FatboySlim, feat. Macy Gray) que dá nome ao episódio, e rodada em um belíssimo slowmotion, resulta em um espetáculo de rigor plástico.

Veja a cena:

Inteiramente fotografada por John Toll, (Além da Linha Vermelha) colaborador dos Wachowski desde Cloud Atlas, mantendo uma coerência estética encantadora, Toll deixa sua câmera sempre na mão, conferindo dinamismo à narrativa. Fugindo de uma paleta pesada, mas sim escolhendo cores vivas que dão uma certa leveza ao projeto. Prudente também a escolha de objetivas, aqui ele utiliza em sua grande maioria teleobjetivas, que transparece uma intimidade com os personagens. Intimidade refletida também na deslumbrante montagem, que pasmem foi feita somente a quatro mãos. Joe Hobeck e Josepeh Jett Sally dispõem uma harmonia extraordinária à narrativa, desenvolvendo os personagens e trama com uma calma e cuidado necessários, e no entanto seus cortes são rápidos e dinâmicos, onde planos e contra planos se passam em países diferentes. Só posso sentir a assombrosa dor logística em coordenar o cronograma de filmagem de 8 protagonistas em 7 países diferentes.

Em um dos primeiros momentos em que todos os personagens estão juntos, todos unidos pela arte, começam a cantar a belíssima musica What’s Up, do 4 Non Blondies, perfeita referência a Magnólia de Paul Thomas Anderson. Aqui os Wachowski demonstram sua mais bela mensagem, de que partilhamos aspirações, paixões, inseguranças, o mesmo medo de estarmos só neste mundo, mas não, não vivemos um cinema mosaico, somos todos um.

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