por Kelly Soares

Nos minutos iniciais, de uma forma rápida, o filme nos conta três histórias curiosas: na primeira história, três homens são enforcados por volta de 1911, pelo assassinato de um farmacêutico, cujos nomes juntos, curiosamente, formam a palavra Greenberry-Hill (nome da cidade onde viveu o farmacêutico), um homem que acabou matando acidentalmente em seu trabalho um outro (o mesmo que esmurrou num jogo de cartas dias atrás) e outra foi o garoto que decidiu se matar, mas não havia visto que havia uma rede que o salvava, mas o que realmente o matou foi o tiro acidental de uma espingarda carregada durante a briga dos pais dele (que sempre andava descarregada e foi carregada pelo garoto para que os pais se matassem), disparada pela mãe no momento que passava caindo pela janela da casa. Após estas três histórias curtas no seu prólogo, todo o restante do roteiro de Paul Thomas Anderson tem uma certa causa e efeito, e tudo contém uma relação restrita, ainda que indireta. Os acontecimentos na trama principal são determinados por fenômenos e eventos conforme as relações humanas são perpetradas, ao invés de um determinismo humano. Para organizar este mosaico de situações e dar coerência, Anderson usa um enorme conjunto paralelo de subtramas carregado de dramas pessoais.

Mais afinal do que se trata o filme Magnólia? A coincidência de doenças incuráveis e também o fato de Jimmy Gator ser o produtor do Quiz Kid (um game show televisivo ficcional antigo e de grande sucesso) e de Frank Mackey exercer domínio sobre a mesma ideologia, nos faz pensar que talvez o filme tente demonstrar o fato das violências cometidas por pais contra seus filhos (sejam físicos ou psicológicos) acaba gerando adultos perdidos e sem esperança.

Criando camadas diversas, o filme aborda não só as relações de pais e filhos, assim como a utiliza para questionar a cultura massiva de televisão, a solidão e a carência por amor. William H. Macy é o reflexo de um possível futuro do garoto que é sucesso no Quiz Kid, que nos leva a Jimmy Gator, que possui uma relação conturbada pela filha, viciada em crack que se vê em uma paixão pelo policial vivido por John C. Reilly, homem solitário que lida com um caso de assassinato de fatores e motivações misteriosas. No outro lado, Jason Robards é um velho milionário a poucos passos da morte, casado com uma mulher mais nova interpretada por Julianne Moore, que nunca o amou e tal sentimento só vem a tona quando está prestes a morrer, e pai de um guru do amor representado com perfeição por Tom Cruise, de discurso machista, vê seu passado ser exposto em rede nacional em uma entrevista, que é procurado com desespero pelo cuidador do milionário, vivido com sensibilidade por Philip Seymour Hoffman. E a partir disso, todas os conflitos são gerados pela televisão, seja a entrevista ou o game show, Magnólia desnivela cada “pétala” que não é revelada na tela da TV.

Com uma gama gigantesca a ser explorado no roteiro, Paul Thomas Anderson interliga conceitualmente e dramaticamente cada estória, cada tema e cada conflito, porque devido a um acontecimento estranho e inesperado no fim do segundo ato, ela coloca todos diante do mesmo julgamento e todos são colocados em caminhos que rumam para a entrega e confissão de seus pecados (ou algo além disso). Paira um motor nada lógico em cada evento, a quebra constante do andamento da diegese pela canção Wise-Up, cantada por todos os personagens em cena ao mesmo momento, nos faz duvidar da individualidade da vida de cada um – um influi na outra, como um ciclo que atinge um ponto divergente.

Magnolia possui diversas simbologias, entre elas, uma referência implícita ao Êxodo 8:2, que por sinal aparece várias vezes no decorrer do filme em forma de previsão do tempo em legendas que parecem sem propósito no começo, nos leva a parte mais bizarra e insólita do filme: a “chuva de sapos”. Lembrando que sapos são símbolo de bem – aventurança (felicidade e tranquilidade) na cultura oriental. Essa perspectiva faz perceber que depois da chuva todos ficam iguais, pois arrependem-se, assumem seus erros e estão dispostos ao perdão e à redenção.

Talvez o conflito de pais e filhos remetam a eterna crise dos homens com Deus, talvez a inserção de uma passagem bíblica, um fenômeno insólito e que completa a crescente quebra de diegese, assim como fizera na sequência musical que toca Wise-Up, o fator que prevê a chuva de sapos, a entrada de todos os personagens ao “tribunal” da vida, de destinos imprevisíveis, um Deus Ex Machina com um conceito moderno – a intervenção divina que decide assumir e quebrar o andamento normal daquela realidade, assim como no andamento comum do roteiro.

Magnólia demonstra fatores além da nossa compreensão (e que nós mesmos não buscamos compreender) que podem levar várias histórias ao um rumo totalmente diferente, como se quisesse justificar a frase “Deus escreve certo por linhas tortas”.

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