por Maurício Owada

O quê você faria se um misterioso senhor de gravata te oferecesse café, cigarro e uma oportunidade de dar certo na vida através de fraudes em cassinos e jogos menores? Enfim, no primeiro filme, Paul Thomas Anderson demonstra apego em personagens que se refugiam para soluções fáceis na vida e se perdem em excessos e cometem atos impensados em um mundo, muitas vezes, cercada de tentações e vícios. Jamais tomou uma posição moral ou moralista, mas sua câmera já afunda diretamente no poço que seus personagens caem, os acompanhando sem julgamentos e cria uma empatia a pessoas que na vida real, seriam consideradas pervertidas e imorais pelo olhar comum.

Mas toda essa complexidade se iniciaria em Boogie Nights, mas nem por isso Jogada de Risco não deixa de possuir uma complexidade psicológica desenvolvida por um roteiro refinado pelo próprio diretor. A pergunta do primeiro parágrafo descreve exatamente os primeiros minutos e o início da relação do misterioso Sydney (Philip Baker Hall) e John (John C. Reilly), um jovem que se inicia sem dinheiro e sem rumo após a morte da mãe e a ajuda de Sydney o leva a ter uma vida mais luxuosa e estreita os laços entre os dois como se fossem pai e filho. A história toma rumos mais tortuosos com a presença da garçonete Clementine (Gwyneth Paltrow), por quem John se apaixona e Sydney a trata como uma segunda filha, e Jimmy (Samuel L. Jackson), um segurança de cassino nada confiável.

De pouquíssimas locações, o cineasta se concentra na direção de atores, seja o altruísmo duvidoso de Sydney, ou John e Clementine, que são impulsivos e acabam os levando a situações de risco. Com uma participação especial, Philip Seymour Hoffman dá um show em apenas uma cena e já planta a semente para uma prolífica parceria, que atingiria o seu ápice na performance do ator em O Mestre, último trabalho junto com o cineasta antes de morrer.

Jogada de Risco é simples em seus aspectos que tomariam proporções maiores em outras produções, como o roteiro que possui uma história bem básica, mas demonstra já a habilidade do diretor com seus atores e um controle narrativo invejável, que demonstrava não só a segurança que é difícil encontrar em artistas mais novatos, mas também uma ousadia na construção da misé-en-scene e um talento nato por trás das câmeras, idealizando enquadramentos, ângulos e movimentação como um balé. É daqueles trabalhos que nos faz enxergar diversas possibilidades de um talento novo e hoje temos a alegria de poder ver.

Anúncios