por Maurício Owada

Talentoso e ousado, Paul Thomas Anderson é um dos diretores mais aclamados dos anos 90 e não é para pouco. Trabalhos que remetem a cineastas da Nova Hollywood, como Robert Altman e Martin Scorsese, P.T. Anderson não tem medo em mergulhar em personagens que se afundam em excessos, afogados pelo sonho americano e devastados pelas consequências com que se deparam ao longo do caminho, em busca da afirmação do seu status.

Garoto de disciplina nada exemplar e notas baixas na escola, Paul era um rapaz que aprendeu cinema assistindo filmes, não tendo nenhuma formação acadêmica, assim como Quentin Tarantino e Kevin Smith, sendo um daqueles denominados como “Cineasta de VCR”, por conhecer e aprender cinema pelos videocassetes comprados ou alugados.

Ganhador do Festival de Sundance (de onde sai os grandes cineastas americanos contemporâneos) pelo curta Coffee & Cigarettes em 1993 no Short Programs II, ele ganhou forças para trabalhar em seu primeiro longa-metragem através do Sundance Institute’s Filmmaker Workshop: Jogada de Risco, apresentando um roteiro simples, mas com uma direção de atores e um trabalho de câmera surpreendente. Mas é apenas em Boogie Nights – Prazer Sem Limites, filme que explora os bastidores do cinema pornô dos anos 70 que o cineasta se afirma com um talento nato para a direção de atores, que contava com um número grande de estrelas com excelentes performances, além de um roteiro que dava espaço para trabalhar estes personagens e uma montagem dinâmica que remetia ao trabalho de Thelma Schoonmaker em Os Bons Companheiros, se assemelhando até na estrutura e na trajetória da estória.

Mas o ponto alto do cineasta viria com Magnólia, ganhador do Urso de Ouro em Berlim, repetindo o bom trabalho com atores e câmera, com um roteiro que ultrapassava os limites da realidade para trazer simbologias e interpretações numa gama imensa de personagens, um mosaico de sonhos, desejos e frustrações. Até hoje, o longa é considerado a obra-prima do cineasta que trás diversas camadas de interpretações entre o público, tendo marcado a história do cinema no final dos anos 90.

Já seu quarto filme, Embriagado de Amor, foi um retumbante fracasso comercial, mesmo com o popular ator Adam Sandler no papel principal, mas foi elogiadíssimo e Paul Thomas Anderson leva o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes em 2002. Mas novamente, o cineasta alcançaria mais uma vez a consagração em 2007 por Sangue Negro, por qual foi indicado a melhor roteiro adaptado e melhor diretor, além de melhor filme para a obra, que saiu com os Oscars de melhor fotografia e melhor ator para Daniel Day-Lewis, em sua mais aclamada performance, perdendo a disputa pelo prêmio principal para seu pário duro, o também aclamado e incrível Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos Irmãos Coen.

Em O Mestre, PTA trabalha pela última vez com o grande ator Philip Seymour Hoffman, que morreria mais tarde, que entrega uma grande performance ao lado de Joaquin Phoenix e Amy Adams, causando polêmica pelo seu conteúdo, cuja trama fazia um paralelo com a atual cientologia, refletindo sobre a inquietude da alma humana envolvendo temas como vício, religião e ética em performances complexas e um roteiro ainda mais complexo e profundo. Além disso, a obra foi filmada em película 65 milímetros para ser exibida em 70 milímetros nos cinemas, entregando também uma fotografia sensacional. Ganhou o prêmio FIPRESCI – Federação da Crítica Internacional – em Veneza.

Esnobado em várias premiações, Vício Inerente marca a primeira adaptação de uma obra do renomado autor Thomas Pynchon, que não causou um grande alvoroço, mas deixou sua marca na memória recente de cinéfilos e fãs do trabalho do cineasta. Desta vez, Paul Thomas Anderson reforça mais uma parceria, com o ator Joaquim Phoenix, juntamente com um grande elenco, aonde desglamouriza a contracultura dos hippies nos anos 60, misturado a um mistério policial.

Paul Thomas Anderson se destaca por uma linguagem independente, saindo dos parâmetros de Hollywood, buscando uma estética rigorosa calcada no refinamento estético e narrativo, do que mera referência. É um cinema preocupado com a imagem, com a condição do ser humano diante dos fenômenos e contextos do mundo, permeado pelos valores que nós crescemos e aprendemos a acreditar e respeitar. Não á toa, PTA era um garoto indisciplinado – a disciplina não se aplica ao conjunto de valores dele e de seus personagens, que mesmo diante de consequências pesadas e fardos desgastantes, não são julgados ou colocados como exemplo para o público.

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