por Rodrigo Italiani

Nas últimas semanas tem se falado muito sobre a nova série da gigante Netflix, Narcos. Não é de se estranhar a repercussão nacional, uma vez que traz junto à sua equipe dois gigantes para o cinema Brasileiro, Wagner Moura e José Padilha, conhecidos exatamente pela parceria também de enorme peso em Tropa de Elite 1 e 2. Porém, ao estrear no dia 28 de Agosto, a série certamente se provou pelo menos digna da hipérbole.

Javier Peña (Pedro Pascal) e Steve Murphy (Boyd Holbrook), agentes da DEA responsáveis pela investigação que desmantelou o Cartel de Medellín

É impossível não traçar paralelos entre Narcos e Tropa de Elite, uma vez que Padilha, ao dirigir os dois primeiros episódios, dita o tom e ritmo da temporada. Uma das características mais claras é a exploração temática da sociedade deturpada e o lado mais obscuro da vida urbana. Vemos os intrínsecos mecanismos pelo qual funcionou o Cartel de Medellín: A violência, a corrupção e o medo. Não existem mocinhos nesta história, como a narração nos faz questão de lembrar diversas vezes. Aqui entra outra característica de fácil comparação: A Narração em off, que em Narcos se dá pela voz do agente Steve Murphy. Embora o artifício tenha funcionado muito melhor no primeiro Tropa de Elite e com algumas falhas no segundo, em Narcos a narração se torna rapidamente cansativa, por vezes irritante, ao repetir ideias de maneira quase doutrinante e ao prever acontecimentos, provando-se redundante e didática uma vez que os acontecimentos em si bastam para compreensão das cenas. Há porém, no segundo episódio, um momento em que o diretor revisita uma cena notável para qualquer fã de Tropa de Elite.

Introduzida sob o conceito do Realismo Mágico, a série apresenta Escobar como uma figura quase fantástica, sempre um passo a frente de qualquer inimigo, com uma quantidade de feitos sobre-humanos sob as mangas, como ser capaz de pagar a própria dívida externa da Colômbia se quisesse ou forçar um país todo e seu governo a se dobrar perante suas vontades ou até mesmo construir sua própria prisão (uma verdadeira mansão) sem permitir que as forças da lei se aproximassem mais que três quilômetros. Tudo isso intercalado com o recurso documental de reportagens e gravações reais, que conferem aos eventos da história uma força inegável.

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Wagner Moura como Pablo Escobar – “plata o plomo”

A temporada começa ainda nos anos 70, contando simultaneamente a história da ascensão de Pablo Escobar de contrabandista para narcotraficante e do agente Steve Murphy, da agência de narcóticos (DEA) dos Estados Unidos. A série começa de maneira muito consistente, nos primeiros episódios e é possível mergulhar na vida pessoal dos próprios personagens: de um Pablo Escobar, interpretado soberbamente por Wagner Moura, com espaço de sobra para trabalhar um personagem, que é tão violento em suas emoções quanto era em vida, ou de um Steve Murphy inocente e brincalhão, que progressivamente mergulha num emergente mundo de violência e sujeira, dando espaço também para mergulhar na sociedade e cultura Colombiana da época, em todos seus caminhos e engrenagens.

Tudo de maneira completamente equilibrada. Os primeiros obstáculos surgem porém em algum momento a partir da metade da temporada, é possível sentir uma queda de ritmo, que já não tem a mesma energia dos primeiros episódios. O espaço de imersão que antes pudera ser sentido nos primeiros episódios faz se raso. Em determinada cena, após a morte de alguém importante para Pablo, ele senta-se com a mãe e ambos relembram memórias de sua infância, mas isso se torna um momento quase vazio, mesmo com o esforço de Wagner Moura, já que não tivemos acesso anteriormente a infância de Pablo e a esta altura na temporada, já nem temos mais o mesmo acesso a sua vida pessoal e pensamentos. A narração toma conta de esclarecer apenas os fatos e guiar-nos para suas consequências. Ainda assim há força suficiente, mesmo sob turbulências, para nos guiar pela conquista violenta do império de Pablo Escobar através de um elenco articulado e capaz.

Gacha, interpretado por Luis Guzmán

Apesar de alguns problemas, Narcos alcança muito bem um objetivo árduo: O de traduzir uma história tão complexa, com tamanhas vertentes e pontos de vista, em uma temporada com apenas dez episódios, sob um ritmo frenético que é suficiente para poder forçar qualquer um a abandonar seus compromissos e afazeres só para poder devorar episódio após episódio. Além do último episódio fechar com uma (alta) possibilidade de uma segunda e conclusiva temporada.

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